2190 visitas - Fonte: Oriental Review EUA
Segunda-feira, 25 de Abril de 2016
por Andrew KORYBKO (USA)
Tradução: Lia Drumond
O texto original pode ser lido aqui
Brasil está no meio de uma operação prolongada para mudança de regime, conforme documentado passo a passo por Pepe Escobar em seus artigos para Sputnik, RT, e Strategic Culture Foundation (Fundação de Cultura Estratégica). A intenção do autor não é abordar especificamente cada detalhe das situações por trás das técnicas dos EUA, mas fornecer uma visão geral das estratégias que estão em jogo e suas contribuições para a teoria de "Guerra Híbrida". O Brasil é um importante campo de batalha da Nova Guerra Fria não apenas por sua multipolaridade institucional, mas particularmente por seu papel na visão global da China de "Um cinturão, uma estrada" (N.T. relacionado a nova rota da seda). Os chineses anunciaram no ano passado que planejam construir a Ferrovia Twin Ocean entre a costa atlântica do Brasil e da costa pacífica do Peru, a fim de facilitar o comércio transoceânico entre os dois membros do BRICS aumentando a capacidade comercial transcontinental de Brasilia. Devido a este mega projeto estar localizado no próprio hemisfério dos EUA , da "Doutrina Monroe"- Excepcionalistas (N.T. Conservadores fundamentalistas) obcecados aceleraram seus planos de mudança de regime existentes para o Brasil com a intenção de derrubar seu governo e de sua substituição por uma caterva pró-unipolar (N.T. unipartidário/unilateral). Muitos observadores estão coçando a cabeça e se perguntando como descrever corretamente o que estão testemunhando no Brasil, e enquanto há certamente evidência visível de uma Revolução Colorida, seria inexato descrevê-la apenas pelo prisma desta definição. Pelo mesmo motivo, apesar de ter sido comparada a uma Guerra Híbrida, ela também só se encaixa nos aspectos "convencionais" informativos/econômicos desse termo e, realmente não satisfaz os pré-requisitos para uma mudança de regime de transição gradual de uma Revolução Colorida para uma guerra não-convencional (ou pelo menos não ainda). Da mesma forma, enquanto há definitivamente um 'golpe constitucional' acontecendo, ele também não significa inteiramente mudança de regime, qualquer que seja. Em vez disso, há elementos de todas as três estratégias em jogo, e eles interagem em uma dinâmica única que pode representar a inauguração de um nova abordagem padronizada que visa a desabilitar os principais estados multipartidários. O que é importante ressaltar é que o enredo todo foi colocada em ação como resultado de informações valiosas que a NSA obteve sobre a maior empresa do Brasil e, mais tarde transformado em arma para uma cataclísmica mudança de regime, o que significa que praticamente todos os países do mundo são potencialmente vulneráveis a este tipo de desestabilização assimétrica.
A Inquisição "Anti-Corrupção"
O veículo-chave para exercer pressão sobre a presidente Dilma Rousseff não é o movimento Revolução Colorida, em si uma conseqüência da "Revolução Cashmere" e o retorno do qual o autor advertiu sobre no último verão, mas as tentativas de 'golpe constitucional' que estão sendo orquestradas para removê-la do poder. Vale a pena lembrar que estas (tentativas de golpe) são construídas sobre uma investigação "anti-corrupção" que, tal como Pepe Escobar ressaltou várias vezes, são unilaterais e só é alvo o partido no poder. Foi revelado em setembro de 2013, como parte dos vazamentos de Snowden, que a NSA esteve espionando a Petrobras, a empresa no centro do escândalo do "golpe constitucional", o que por sua vez levanta a possibilidade de que os EUA tenham obtido informações "comprometedoras" sobre as alegadas atividades de corrupção de importantes executivos do partido dominante e estava esperando o momento certo para usar isso como arma. Não deveria ser visto como uma coincidência que a "Lava Jato", investigação 'anti-corrupção' começou quase meio ano mais tarde, em março de 2014, que foi o período de preparação para a 6ª Cúpula BRICS em Fortaleza, Brasil naquele verão. Durante esse grande evento internacional, os líderes multipartidários comprometeram-se a criar a arquitetura financeira alternativa que mais tarde seria conhecida como o Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS e oficialmente instituído um ano depois, em Ufa. Na época, "Lava Jato" não era grande o suficiente para inviabilizar nada disso, mas também não era para ser uma bomba imediata. Em vez disso, pode ser considerada como uma bomba-relógio que foi pré-programada para detonar em uma data futura, com ou sem Rousseff permanecendo no cargo naquela época. O leitor deve lembrar que ela mal ganhou a reeleição naquele outono, e se ela não ganhasse, então teria sido a "oposição" que poderia ter sido implicada ou discretamente chantageada com sua ameaça. Afinal, a "Lava Jato" é um escândalo anti-corrupção unilateral que propositadamente negligencia investigação sobre quaisquer partidos da oposição e destina-se exclusivamente a classe dominante* (N.T. que está no poder), independentemente de quem poderia ter sido. No caso de Rousseff e seu Partido dos Trabalhadores, eles são alvos por conta da mudança de regime, ao passo que o Partido da Social Democracia Brasileira de seu rival nas eleições de 2014, teria sido alvo de chantagem, a fim de mantê-lo alinhado aos preceitos americanos estratégicos para o país. De uma forma ou de outra, depois de iniciar a "inquisição Lava Jato", os EUA o exploraria o quanto fosse possível a fim de alcançar e, em seguida, manter a sua permanência no poder sobre o sistema político brasileiro. Com Rousseff vencedora da reeleição, enquanto o inquérito ainda estava em curso e nem perto de "conclusivamente" acabado, era inevitável, olhando em retrospectiva, que isso seria usado como uma arma para derrubar o governo e iniciar um "golpe constitucional".
"Golpes Constitucionais" e Revoluções Coloridas
Uma vez que Rousseff estava relacionada ( muito mais "convincentemente" no tribunal da opinião pública) em um suposto envolvimento na"Lava Jato", os elementos de mudança de regime pró-americanos incorporados no governo do Brasil entraram em ação no início do processo do "golpe constitucional" contra ela. Por si só e abertamente apresentado como uma inquisição unilateral "anti-corrupção", o "golpe constitucional" não tinha aparência alguma de "legitimidade" nacional ou internacional, o que exigiu uma mudança drástica, a fim de "justificá-lo". Este foi o papel que a incipiente Revolução Colorida acabou fazendo, já que sem dezenas de milhares de pessoas na rua, não poderia haver nenhuma pretensão de "democracia a ser respeitada" por sua acusação. Sem isso, a mão dos EUA em tudo estaria ainda mais evidente do que durante o último golpe da América Latina, o golpe constitucional em 2012, no Paraguai. Além disso, o Brasil não é o Paraguai - é uma poderosa liderança multipartidária e uma nação muitas vezes maior do que seu vizinho sem litoral, e realizar uma mudança de regime exige mais 'finesse' e manipulação de 'relações públicas' no Brasil do que seria necessário no Paraguai. Portanto, a Revolução Colorida em si é irrelevante para pressionar o governo de Rousseff ou reinvindicar quaisquer concessões de liderança em absoluto. Toda a operação de mudança de regime contra ela é impulsionada pelo "golpe constitucional", que se está sendo disfarçado pela Revolução Colorida, que tem atraído a atenção "padrão" da maioria dos meios de comunicação pró-unipolar(unilateral) do mundo. Isto pode ser comprovado pela abundante cobertura da mídia dada aos milhares de pessoas que estão protestando contra ela (Dilma) e protestos em torno de um pato amarelo inflável gigante em comparação com a considerável falta de atenção dada ao papel da NSA na catalisação de toda a inquisição "anti corrupção na Petrobras em primeiro lugar. Claramente, a razão para isso é que os EUA estão participando de um esforço combinado para mudar o diálogo internacional sobre a questão das origens da crise política para a "legitimidade normativa" do governo de Rousseff, fortemente sugerindo que os manifestantes da revolução colorida têm de alguma forma invalidado a reeleição democrática e legítima e, mais do que "normativamente", compensarem os acordos escusos pelo "golpe constitucional" que estão sendo empregados contra ela.
Um crescente risco de Guerra Híbrida
No momento, parece que o "golpe constitucional" Revolução Colorida em dois passos pode ter sucesso na remoção Rousseff e sua substituição pelo vice-presidente Michel Temer, que, na verdade, tem praticado o seu discurso pós-golpe à nação segundo um áudio que vazou recentemente. Caso isto aconteça, então não haveria qualquer motivo para os EUA intensificar a sua operação de mudança de regime para uma guerra híbrida incitando uma guerra não convencional, mas pode inadvertidamente acontecer de os apoiadores de Dilma pegarem em armas em caso de ela ser derrubada. Se isso transparecer, então o país com certeza seria lançado numa guerra híbrida de baixo nível, ainda que esse desenvolvimento aconteça estranhamente depois de os EUA ser bem sucedido em sua missão e não antes, o que em qualquer caso, tomaria um curso que é impossível prever com precisão neste momento. No entanto, considerando o quão apreciada a esquerda é por milhões de pessoas carentes no Brasil e, tendo como exemplo seus companheiros armados na Venezuela, os indivíduos de esquerda podem formar milícias para protegerem-se contra um eventual golpe. Lembrando a surpreendente taxa de criminalidade que já existe dentro do país, é previsível que os ativistas anti-golpe/insurgentes poderiam facilmente obter todas as armas que precisassem, a fim de criar uma perturbação desestabilizadora. Além disso, a Unasul deu a entender que não reconheceria possível impeachment de Dilma, o que pode conceder maior grau de apoio normativo para quaisquer milícias que se levantem em seu nome. Por outro lado, se o processo de mudança de regime não avançar em bom ritmo a tempo dos Jogos Olímpicos no Rio e uma coisa ou outra acontecer para enfraquecê-lo (por exemplo, o Senado não votar para continuar o processo de impeachment), então há uma chance de que os EUA possam incentivar o terrorismo de direita contra o governo. Essa ação tentaria provocar um incidente internacional que desestabilizaria o governo brasileiro ainda mais do que já está, precisamente no momento em que precisaria da melhor cobertura da mídia possível e quando está mais vulnerável a uma onda de condenação da mídia unilateral contra ela. Visto sob outro ângulo, se a trama contra Rousseff tiver sucesso até lá, com ou sem o acontecimento de quaisquer mudanças rebeldes anti-regime, então, alguns países poderiam optar por boicotar os Jogos Olímpicos, a fim de mostrar a solidariedade com o governo legítimo que foi ilegalmente deposto. Isso não mudaria quaisquer fatos acontecidos, mas seria uma declaração forte e simbólica de apoio que pode incentivar qualquer movimento de resistência armada que se levante em tal período.
Conclusão dos Pensamentos
Avaliando a estratégia de mudança de regime dos EUA contra Rousseff, é evidente que as descobertas da NSA foram usadas para desencadear o 'golpe constitucional', cujos processos têm sido normativamente justificados pela Revolução Colorida pré-planejada (a continuação da chamada "Revolução Cashmere" de 2014). Os protestos até agora não levaram a qualquer grau de pressão substancial sobre o governo apesar de seu enorme tamanho, com a única ação evidente de força anti-governo resultar da inquisição 'legal' que foi lançada contra a Presidenta brasileira. Nada neste momento indica que o governo está ameaçado pelos ativistas de rua, apesar de tudo apontar que ele esteja totalmente desestabilizado pela conspiração da "Lava Jato" contra ele. Embora nenhum vestígio da Guerra Híbrida perceptível pode ser encontrado até agora (como na definição de mudança de regime do autor deste conceito), não significa que não possa surgir num futuro próximo, seja conduzido por terroristas de direita anti-governamentais ou insurgentes pro-governo pós-golpe. Não há nenhuma garantia de que qualquer um vai acontecer, mas a possibilidade não pode ser totalmente descartada, e deve-se estar preparado para ambas situações. Não importa o que, em última análise, aconteça no Brasil, o cenário de mudança de regime atualmente em curso é símbolo de um novo tipo de interação subversiva entre a NSA, atores do "golpe constitucional" e revolucionários coloridos, e pode perturbadoramente prenunciar uma tendência de desestabilização estadual que poderá em breve ser aplicada em outros lugares contra outros alvos multipartidários.
Andrew Korybko é comentarista político americano atualmente trabalhando para a agência Sputnik.
(* Tradução livre realizada sem fins comerciais ou lucrativos, apenas para conhecimento do povo brasileiro sobre seu conteúdo)
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