Governo foi alertado sobre riscos de compra e produção em massa de cloroquina contra Covid-19
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2563 visitas - Fonte: O Globo
BRASÍLIA— O Ministério da Saúde foi alertado por técnicos do Comitê de Operações de Emergência (COE) a não adquirir e produzir cloroquina em massa durante a epidemia causada pelo novo coronavírus. De acordo com ata de uma reunião do grupo realizada em 25 de maio à qual O GLOBO teve acesso, o COE argumentou que, “devido a situação atual”, o governo corria o risco de ficar com estoque do remédio “parado”. Em outra ata, o COE estima que o governo tenha mais de 4 milhões de comprimidos de cloroquina em estoque. O volume deve aumentar porque alguns estados se recusaram a receber 1,4 milhão de comprimidos da droga.
O COE é composto de técnicos especializados em resposta às emergências de saúde pública. Além do Ministério da Saúde, compõe o grupo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) — vinculada à Organização Mundial de Saúde (OMS) —, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Instituto Evandro Chagas (IEC), entre outros órgãos.
Na reunião do dia 25 de maio, o tema principal do encontro foi a capacidade de produção de cloroquina para atender às novas orientações do Ministério da Saúde sobre o uso da substância. Cinco dias antes, o ministério havia divulgado um documento orientando o uso do medicamento em todas as fases da Covid-19 e não apenas para os casos graves, como vinha ocorrendo até então.
Os técnicos apontavam que, à época, a capacidade de produção do medicamento era limitada. Na ata, o governo informa que havia feito um levantamento junto a empresas no Brasil e no exterior para “trazer” 3 toneladas de insumos para a produção de cloroquina ao país.
“Fizemos o levantamento das empresas que têm registro no Brasil e, via Ministério das relações exteriores, vamos trazer 03 toneladas de IFA para o Brasil”, diz um trecho da ata.
Em outro ponto, um participante da reunião pondera que importar uma quantidade tão grande do insumo não seria aconselhável.
“Devido a atual situação não é aconselhável trazer uma quantidade muito grande, pois caso o protocolo venha a mudar, podemos ficar com um número em estoque parado para prestar contas”, diz a ata.
A identidade dos interlocutores da reunião não é revelada na ata.
Apesar de a orientação do governo em relação à cloroquina não ter mudado, o governo agora tem que lidar com um estoque de pelo menos 5,4 milhões de comprimidos. Segundo outra ata do COE, de julho deste ano, o Ministério da Saúde tem hoje 4 milhões de comprimidos do medicamento em estoque. Há outros 1,4 milhão de comprimidos que deverão ser devolvidos ao governo porque alguns estados não quiserem receber o medicamento.
Produção é investigada pelo TCU
A aposta do governo na cloroquina é um dos pontos mais polêmicos da ação do Ministério da Saúde desde o início da pandemia. Não há consenso junto à comunidade científica internacional sobre a eficácia da substância no combate aos sintomas da Covid-19. Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendeu estudos que investigavam os supostos benefícios da droga no combate à doença.
Na semana passada, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) divulgou uma nota sugerindo a suspensão imediata da orientação para o uso da substância no tratamento da doença. A nota foi contestada pela Associação Médica Brasileira (AMB), que defendeu a liberdade do médico para prescrever da cloroquina para pacientes com Covid-19.
Mesmo assim, ela é defendida pelo presidente Jair Bolsonaro, que foi diagnosticado com a Covid-19 e que afirma estar utilizando o medicamento em seu tratamento.
Em junho, o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União (MP-TCU) pediram a abertura de uma investigação sobre a fabricação de comprimidos de cloroquina pelo laboratório do Exército. Segundo MP e TCU, há suspeitas de superfaturamento na compra da matéria-prima para o medicamento. O caso ainda está sendo investigado.
No final de junho, o Exército anunciou que o Laboratório do Exército tinha 1,8 milhão de comprimidos em estoque e que não havia previsão para continuar a produção.
País poderia levar até 2 anos para controlar pandemia, alertaram técnicos
As atas do COE também mostraram que o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, foi alertado sobre os benefícios do isolamento social como medida para reduzir o impacto da pandemia na saúde e na economia. A informação foi revelada nesta quinta-feira pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada pelo GLOBO.
Em outra reunião no dia 25 de maio, técnicos do COE disseram que, sem isolamento, o país poderia levar até dois anos para controlar a pandemia.
O GLOBO procurou o Ministério da Saúde para se manifestar sobre os alertas feitos em relação à compra e produção de cloroquina, mas até a conclusão desta reportagem não houve retorno.
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