Prática tradicional da política sobrevive com aliados do Governo indicando parentes para cargos
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2562 visitas - Fonte: O Globo
BRASÍLIA — A indicação da filha de Braga Netto, ministro da Casa Civil, para uma vaga na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), frustrada após a divulgação, não seria algo inédito na gestão de Jair Bolsonaro. Em seu mandato, persiste a velha prática da nomeação de parentes de deputados, senadores e demais aliados em cargos do governo federal.
Em maio deste ano, o filho do senador Elmano Férrer (PODE-PI), Leonardo Férrer, tornou-se ouvidor na Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba). Ele teve um voto contrário da representante dos trabalhadores da companhia, que disse que o cargo deveria ser de um servidor de carreira.
Só na Funasa (Fundação Nacional de Saúde), entidade vinculada ao Ministério da Saúde, o governo nomeou em agosto passado a mulher do líder do PL, Wellington Roberto (PB), Deborah Roberto, e uma tia do deputado Gustinho Ribeiro (SD-SE), Maria Luiz Felix. Na superintendência do órgão na Paraíba, foi mantida a mãe do líder da maioria na Câmara, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). Virgínia Velloso Borges ocupa o cargo desde 2017.
Procurado, Aguinaldo Ribeiro se restringiu a dizer, através de sua assessoria, que sua mãe foi nomeada no governo de Michel Temer. Wellington Roberto diz que a indicação de sua mulher é técnica:
— Ela é competentíssima, já trabalhou em vários órgãos aqui em Brasília e agora está na diretoria de saúde ambiental e fazendo um trabalho excelente. Está comunicando tudo ao presidente e colocando ordem por lá.
Já o senador Izalci Lucas (PSDB-DF), vice-líder do governo no Senado Federal, tem o filho, Sérgio Fernandes Ferreira, empregado em uma diretoria no Ministério do Turismo, mas nega qualquer tipo de favorecimento.
— Ele é jovem de boa formação e secretário-geral do partido. Tem vida independente e não sou eu que vou proibi-lo de atuar no governo, até porque já fiz isso durante toda minha trajetória — afirma Izalci.
Em 17 de abril de 2019, o deputado Julio Cesar (PSD-PI) conseguiu a nomeação de sua irmã, Jacqueline Carvalho Maia, na Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Ela é assessora da presidência da companhia, ligada ao Ministério da Agricultura.
— Eu já fui diretor administrativo da Conab em 2001, e conhecendo lá as pessoas consegui uma indicação dela. Não foi critério político, foi mais pela relação de amizade, por eu conhecer as pessoas — diz.
Há ainda o caso da esposa do deputado federal Herculano Passos (MDB-SP), ex-vice-líder do governo, que ocupava uma secretaria no Ministério da Cidadania de maio do ano passado até fevereiro deste ano, quando saiu para disputar a prefeitura em Itu (SP). Segundo o deputado, ela foi nomeada por ter “competência técnica” e “notória experiência na área”.
O deputado Cláudio Cajado (PP-BA) também emplacou a indicação de sua mulher em um cargo no governo no ano passado. Superintendente da Funasa na Bahia de julho de 2019 até janeiro deste ano, Andreia Cajado deixou o cargo para assumir uma diretoria em uma agência no governo da Bahia. Ela é pré-candidata à prefeitura de Dias D’Ávila (BA).
— Ela tem uma atividade política independente da minha, foi prefeita três vezes, é bacharel em Direito e Geografia. A experiência dela exitosa como gestora pública foi que a levou para esse cargo — diz Cajado.
O governo também negociou com Elmar Nascimento (BA) para manter seu irmão, Elmo Nascimento, como superintendente da Codevasf em Juazeiro (BA). Ele deixou o cargo em junho deste ano, também devido às eleições municipais.
Nepotismo cruzado
A nomeação de parentes de aliados não configura nepotismo, segundo o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF). Isso desde que não se trate de nepotismo cruzado — quando, em troca de uma indicação, o político nomeia também um parente de seu aliado.
O senador Elmano Férrer e o deputado Gustinho Ribeironão responderam aos contatos da reportagem. O deputado Elmar Nascimento se limitou a dizer que o irmão foi nomeado ainda no governo Temer.
Foto: Senador Elmano Férrer
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