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26/2/2021 09:50

Forte pressão do mercado interessado em lavrar ouro em terras indígenas incita criação de projeto de lei, prometido em campanha por Bolsonaro

Forte pressão do mercado interessado em lavrar ouro em terras indígenas incita criação de projeto de lei, prometido em campanha por Bolsonaro
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865 visitas - Fonte: Folha de São Paulo

RIO DE JANEIRO

A expectativa pela aprovação do projeto de lei que libera a mineração em terras indígenas na Amazônia provocou uma corrida por pedidos de pesquisa mineral na região, que já vem sofrendo com aumento do garimpo desde o início da escalada do preço do ouro, em 2019.



Segundo levantamento feito pelo Instituto Escolhas, o número de pedidos à ANM (Agência Nacional de Mineração) para pesquisar ouro em Terras Indígenas bateu recorde em 2020, chegando a 31 solicitações.







Chama a atenção o crescimento no número de pedidos para pesquisa do minério em áreas indígenas. Em 2017, oito pedidos do gênero foram feitos. No ano seguinte, 11. Em 2019, foram protocolados 21 pedidos.



A agência ainda não pode aprovar os pedidos, já que a regulamentação da atividade depende da aprovação do projeto de lei, que consta na lista de prioridades apresentadas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ao Congresso este ano.



Mas o instituto avalia que o crescimento dos pedidos é um indicativo do interesse do mercado pela atividade e mostra o tamanho do lobby pela aprovação do projeto, uma das promessas de campanha do presidente da República.



"O pedido é o primeiro passo dentro da mineração dessas áreas, é um indicativo do interesse", diz a gerente de Projetos e Estudos do Instituto Escolhas, Larissa Rodrigues. "E é situação contraditória: como a agência recebe pedidos para realizar atividade dentro de território sem que a legislação permita?"







Segundo levantamento do Escolhas, os pedidos ativos para explorar ouro em terras indígenas abrangem uma área de 2,4 milhões de hectares, o equivalente à área de Sergipe ou de dez cidades do tamanho do Rio de Janeiro.



A mineração nesses territórios é permitida pela Constituição, mas nunca havia sido regulamentada. Em fevereiro de 2020, Bolsonaro assinou o projeto de lei que autoriza a atividade, mas o debate ficou em segundo plano após o início da pandemia.



Em fevereiro de 2021, após a posse do presidente da Câmara, Arthur Lira, o projeto foi elencado pelo Palácio do Planalto como uma das prioridades para o ano. O presidente defende que a atividade levaria desenvolvimento econômico para a região.



A pressão pela aprovação aumentou nos últimos meses, após a disparada da cotação internacional do ouro, considerado um porto seguro para investidores após o início da pandemia do novo coronavírus. Ouro foi o investimento mais rentável no ano passado.







A nova corrida pelo ouro impulsionou o garimpo ilegal dentro da Amazônia Legal. Entre 2019 e 2020, municípios da região experimentaram um incremento de 60% na arrecadação com a Cfem, uma espécie de royalties da mineração, sobre a produção de ouro.



O valor arrecadado, R$ 132 milhões até outubro, é 18 vezes o verificado dez anos antes. A participação de municípios da Amazônia Legal de toda a arrecadação da Cfem sobre o ouro no país saltou de 13% em 2010 para 37% em 2020.



Não há dúvidas entre órgãos ambientalistas, Ministério Público e nem mesmo na ANM que parte desse crescimento se deu por meio da venda de ouro extraído de forma irregular. Em 2019, o Ministério Público deflagrou operação que apurava a compra de quase 611 quilos de ouro de origem clandestina entre 2015 e 2018.



O esquema consistia na aquisição do metal de procedência ilegal para, depois, “esquentá-lo” com um certificado de lavra em áreas legalizadas. Para especialistas, fragilidades na legislação dificultam a fiscalização para coibir fraudes.







O Instituto Escolhas diz que o aumento dos pedidos de pesquisa, mesmo sem a legislação ainda não permita a exploração em terras indígenas, é uma estratégia para marcar lugar antes da eventual aprovação do projeto de lei. E dá uma medida do aumento do lobby pela autorização.



No setor mineral, quem chega primeiro tem a preferência na avaliação dos pedidos. Assim, com a solicitação já feita, o empreendedor garante aquela área até que a agência possa avaliar o caso. Há, no entanto, dúvidas se o novo texto permitirá a análise de pedidos antigos ou começará tudo do zero.



"No setor mineral, a regra é quem chegar primeiro pega", diz Rodrigues. "Enquanto o pedido deles está registrado na ANM, ninguém mais pode pedir naquela área."



O Escolhas calculou também o número de pedidos para exploração de ouro em unidades de conservação, que hoje equivale a uma área de 3,8 milhões de hectares, equivalente à área da Suíça ou de sete cidades do tamanho de Brasília.



E vê forte pressão dos interessados sobre o governo. Nossa avaliação é que 2021 é um ano de bastante atenção, porque o projeto pode de fato andar rápido a qualquer momentos, visto que o lobby anda dentro do palácio do planalto", afirma ela.







Entre as terras indígenas mais afetadas pelos pedidos, estão a TI Baú, no Pará, com 24,6% de sua área coberta por pedidos de exploração; Raposa Serra do Sol (RR), com 8%; Yanomami (AM/RR), com 7,7%; e Kayapó (PA), com 3,7%.



"Independente de quem seja [o explorador], a questão é: essas áreas são sensíveis. São de povos indígenas ou para conservação ambiental, o que não é compatível com uma atividade como a mineração, por todos os impactos que ela tem", afirma Rodrigues.



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