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4/3/2021 09:00

Escândalo na Petrobrás com compra de ações pode virar investigação. Guedes se mostra alheio, como se nada tivesse acontecido

Escândalo  na Petrobrás com compra de ações pode virar investigação. Guedes se mostra alheio, como se nada tivesse acontecido
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1792 visitas - Fonte: UOL

A Comissão de Valores Mobiliários impressionou-se com o cheiro de enxofre que exala de um par de transações com papeis da Petrobras. Ocorreram em 18 de fevereiro, dia em que Jair Bolsonaro decidiu, num faniquito, trocar o comando da estatal. Resultaram em ganhos extraordinários para um investidor cujo nome é protegido pelo sigilo bancário. Coisa de R$ 18 milhões. Cogita-se a abertura de uma investigação.







Deve-se à repórter Malu Gaspar a chegada das transações malcheirosas ao noticiário. Ela expôs os fios da meada em notícia veiculada pelo Globo. Simultaneamente, Paulo Guedes pendurou-se nas manchetes numa posição muito parecida com a de um maestro de Titanic. Declarou que "ofensa", "medo", "vento" e "chuva" não o tiram da poltrona de ministro da Economia.



Guedes ponderou: "Se eu tiver que empurrar o Brasil pelo caminho errado eu prefiro não empurrar, eu prefiro sair". Ele acha que "isso não aconteceu". O ministro ainda não notou. Mas sua agenda liberal triscou num iceberg quando Bolsonaro promoveu a ’pazuelização’ da Petrobras. O capitão trocou um indicado de Guedes por um general da tropa do "um manda, outro obedece."







Bolsonaro virou a mesa numa reunião a portas fechadas da qual participaram meia dúzia de ministros: o próprio Guedes, Braga Netto (Casa Civil), Tarcísio Freitas (Infraestrutura), Bento Albuquerque (Minas e Energia), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Augusto Heleno (GSI).



Apenas 20 minutos depois do encerramento desse encontro, o investidor cuja esperteza chamou a atenção da CVM negociou a opção de venda de mais de dois milhões de ações da Petrobras. Decorridos mais nove minutos, houve nova transação, inteirando 4 milhões de opções de venda.

Para que o investidor misterioso lucrasse, a cotação dos papeis da Petrobras precisaria cair. E elas despencaram. O mergulho do papelório foi impulsionado pela revelação que Bolsonaro faria mais de uma hora depois, em sua live semanal. Durante a transmissão ao vivo pelas redes sociais, o presidente disse que alguma coisa iria acontecer na Petrobras. Aconteceu.







Ou o investidor é um sujeito que nasceu virado para a Lua ou recebeu informação privilegiada. Para ser levada a sério, qualquer investigação terá de passar pelo Planalto. Mas Guedes fala da Petrobras como se Bolsonaro não existisse.



"Tem uma turma que começa com ’o petróleo é nosso’", disse Guedes. "É nosso? Então vamos dar para o povo brasileiro. Vamos pegar os dividendos da Petrobras e vamos entregar uma parte para o povo brasileiro." Numa evidência de que passou a viver no mundo da Lua, o ministro reiterou o desejo de privatizar os Correios e a Eletrobras. Falta combinar com o centrão.



Paulo Guedes exibiu seu alheamento num podcast gravado na última sexta-feira. A certa altura declarou que o Brasil poderá virar uma Argentina ou uma Venezuela se aumentar o endividamento ou errar demais na condução da economia. "Para virar Argentina, seis meses. Para virar Venezuela, um ano e meio. Se fizer errado vai rápido. Quer ir para o outro lado? É o seguinte: quer virar a Alemanha, quer virar os Estados Unidos, dez, 15 anos na outra direção".







Minutos depois, Guedes calibrou a língua: "Nós estamos falando para muita gente. Eu estou exagerando. É bem mais moderado. Leva uns três anos para virar a Argentina e leva uns cinco, seis anos para virar a Venezuela". Faltou explicar o que está fazendo para evitar que Bolsonaro vire um Nicolás Maduro de extrema direita.



O enredo de Titanic, o filme, é sobre um homem, uma mulher e um iceberg. Na sua versão brasiliense, o script é parecido: um capitão, um maestro e as diversas cepas de vírus que ajudam a puxar a agenda do ex-superministro para o fundo. A diferença entre Guedes e o maestro do Titanic está na orquestra.



No célebre transatlântico, os músicos continuaram tocando enquanto a água subia. Na equipe econômica, a turma bate em retirada. Só Guedes continua firme: "Eu tenho noção do compromisso. Enquanto eu puder ser útil, gozar da confiança do presidente, porque ele... Glub, glub, glub..."



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