Queremos ´´unir os democratas de todas as origens e matizes`` para preservar a democracia (Lula)
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Democracia como valor universal: lula com chuchu é iguaria na era do ódio - Por Reinaldo Azevedo
O petista Luiz Inácio Lula da Silva, agora pré-candidato oficial do PT à Presidência da República, fez o seu melhor discurso político desde que ficou claro que seria o nome do partido a disputar as eleições e, dado o momento por que passa o país, um dos melhores de sua carreira. Antecedeu-o aquele que será vice na sua chapa: Geraldo Alckmin, agora no PSB, com uma fala igualmente vigorosa. No sábado, o prato sugerido por Alckmin — lula com chuchu — virou uma iguaria em tempos enfezados. Nota: essa palavra não deriva de "fezes", ao contrário do que se diz por aí. Mas convenham: às vezes, há sabedoria, digamos, contextual na falsa etimologia.
Tanto Lula como Alckmin evidenciaram qual é a principal tarefa desses dias de ódio e delírio reacionário, o que — e não foi por falta de advertência — os postulantes à tal "terceira via" preferiram ignorar, num erro histórico. Não me parece que haja tempo para correção de rumos. Os que andaram pelos desvios, no entanto, ainda terão a oportunidade de fazer escolhas morais pelo que pode se afigurar, segundo seu ponto de vista, o mal menor. Mas isso é lá com eles. E qual é a tarefa? Preservar a democracia. Ela é a condição primária de todas as outras postulações.
Nesse sentido, a frase do sábado que é um emblema político da natureza da aliança saiu da boca de Alckmin, com clareza solar:
É a missão de preservar a democracia, e ambos se estenderam longamente a respeito, que determina a aliança entre dois políticos que fizeram carreira em campos ideológicos bastante distintos, confrontando-se diretamente na disputa presidencial de 2006. E trocaram, sim, palavras duras, como costuma acontecer em embates dessa natureza. Mas cabe a pergunta, leitores: o regime democrático, por acaso, corria riscos? Restava no ar a hipótese insana de rompimento da ordem, a depender do resultado? Ora, ninguém ousou tocar nesse assunto nem em 2002, quando a primeira vitória de Lula começou a se desenhar no horizonte. Jair Bolsonaro levou a desordem aos três Poderes da República e aos quarteis. E isso tem de parar.
Na sua vez de falar, Lula desdobrou o achado de Alckmin -- segundo o petista, um não conhecia o discurso do outro, e me contam que isso é mesmo verdade. Afirmou o pré-candidato do PT:
Não são os adversários de Bolsonaro que, na ânsia de vencê-lo, criam uma falsa polarização entre democracia ou ditadura; respeito às urnas ou golpe; estimulo à paz ou incitamento à violência; subordinação à ordem legal ou tentações disruptivas; respeito a políticas ambientais vitais para a economia ou ataque pistoleiro ao meio ambiente e às reservas indígenas... Essa polarização, a verdadeira, é anunciada pelo próprio presidente e por seus acólitos, que não se intimidam de ir às ruas pregar golpe de estado, seguindo orientações e apelos de seu líder.
"CHAMADO À RAZÃO"
Vencer o desastre bolsonarista, Alckmin deixou claro, está na raiz de sua composição com Lula, que ele nominou de "um verdadeiro chamado à razão". Afirmou, referindo-se ao atual governo e àquele que considera o remédio adequado:
Lula, por sua vez, afirmou, com igual sentido:
É evidente que eu concordo com a tese de que a preservação da democracia e a "retecitura" da institucionalidade, ora esgarçada, são as principais tarefas do futuro governo. E, pois, antes da disputa propriamente, devem definir as escolhas, as candidaturas, as alianças. Na própria imprensa — sempre me refiro à respeitável, não ao lixão fascistoide que tenta se fingir de jornalismo —, há quem não tenha se dado conta do risco que corremos e das ameaças em curso.
AH, ENTÃO NADA DIVIDE?
"Ah, Reinaldo, então nada divide? Se eleito, Lula inaugura, ao menos em território brasileiro, a paz universal kantiana?" Que besteira! É claro que ele tem um entendimento da economia e do papel do Estado que não coincide, por exemplo, com postulados de corte marcadamente liberal, por exemplo. A propósito: Paulo Guedes é o plantonista do liberalismo na atual gestão. O que acham?
Lula afirmou, por exemplo:
É difícil acreditar que uma empresa que tem lucro líquido de R$ 44,561 bilhões no primeiro trimestre — 3.718,4% maior do que apurado no mesmo período do ano passado (R$ 1,167 bilhão) — esteja precisando de ajuda. A equação encontrada por Lula para explicar a elevação do preço dos combustíveis não convence. O preço estratosférico do combustível não está relacionado com o desinvestimento feito pela empresa no passado. Com a devida vênia, a explicação está errada. Há um sinal aí, para surpresa de ninguém: Lula não será um presidente privatizador — como não foi, diga-se. Mas Bolsonaro é ou será?
Quem prometia arrecadar R$ 1 trilhão com privatizações era Guedes, lembram-se? E, no entanto, fez-se o tal marco de venda do controle da Telebras, e o texto final é um monumento ao capitalismo cartorial. Uma coisa é o que se diz. Outra, o que se faz. Lula fala também sobre diesel e gás — e estou entre aqueles que acham que é preciso haver uma política pública para cuidar do preço desses dois itens.
Se eleito presidente, é claro que o petista terá dificuldades — e as houve no passado — para lidar com a questão. E, em casos assim, ocorre o quê? Debates, altercações, confronto de opiniões etc. Nada que a democracia não suporte. O inaceitável é que se queira botar fogo no parquinho para que os infantes parem de brincar — ou de brigar, não é mesmo? Se eleito, é bem provável que eu cobre privatizações de Lula no futuro, mas certamente não para usar o dinheiro em despesas correntes, como Guedes disse que gostaria de fazer, alegando que, assim, estaria a distribuir o resultado entre os pobres. Não! Estaria apenas torrando patrimônio público. Sem atacar as causas da pobreza.
CAMINHANDO PARA A CONCLUSÃO
Querem saber? Não vejo a hora de voltarmos a ter embates como os propostos por Lula quando fala de questões econômicas -- ainda que, se me permitem a expressão, de amplíssima macroeconomia. Sabem por quê? Porque coisas assim se debatem em todas as democracias do mundo -- se não as estatais propriamente, o embate entre mais estado ou menos é permanente.
O que não é normal é nos digladiarmos sobre o cumprimento ou não das regras do jogo democrático; sobre acatar ou não o resultado das urnas; sobre a força armada gerenciar ou não um tribunal eleitoral...
O que não é normal é nos vermos na contingência de fazer a frente ampla em defesa da democracia. E, hoje, ela é uma imposição moral, pouco importa qual seja o seu voto.
Que outros postulantes à Presidência expressem com igual clareza seu repúdio ao golpismo, à autocracia e às tentações ditatoriais.
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