A 'reestruturação silenciosa' das escolas estaduais paulistas
Compartilhe
1988 visitas - Fonte: Rede Brasil Atual
Está em curso na Rede Estadual de Ensino de São Paulo um processo generalizado e silencioso de fechamento de classes de ensino médio no período noturno. A Apeoesp tem recebido denúncias de que isto ocorre em diversas regiões do estado e está realizando um levantamento dessas ocorrências.
É preciso que as autoridades entendam que as famílias não matriculam seus filhos no noturno por capricho. Na faixa etária de que estamos tratando, na maior parte das vezes é o próprio estudante quem toma a decisão de matricular-se no período noturno, seja por frequentar curso técnico, curso profissionalizante ou algum treinamento profissional durante o dia, seja porque já trabalha, é aprendiz e contribui para a renda familiar.
Ao recusar as matrículas de alunos no período noturno em determinadas unidades, o Estado deixa-os muitas vezes sem alternativas, pela inexistência de outras unidades escolares em seus bairros. Dessa forma, obriga-os a deslocarem-se para unidades bem mais distantes. Isso é um desestímulo à escolarização, considerando-se os já altos índices de evasão no ensino médio. O governo, assim, torna os atuais estudantes em potenciais candidatos à Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Por outro lado, em muitas regiões a única alternativa oferecida são as escolas de tempo integral, praticamente forçando os estudantes a nelas se matricular. Nós, da Apeoesp, defendemos a educação em tempo integral, mas nossa concepção difere profundamente do projeto que vem sendo aplicado pela Secretaria Estadual da Educação, a começar pelo método utilizado. Para nós, o ensino em tempo integral é uma proposta a ser construída com ampla participação da comunidade. É uma escolha, uma opção, e não uma imposição do Estado.
Para representar um avanço do ponto de vista pedagógico, a escola de tempo integral, além de necessitar de todas as condições ao seu funcionamento, como espaços e equipamentos, não pode ser imposta de cima para baixo. O aluno precisa querer ir; os pais precisam querer enviar seus filhos; e os professores precisam querer trabalhar na escola de tempo integral. Ela deve ganhar a comunidade pela adesão e não pela coerção. Seu projeto político-pedagógico deve atender às necessidades dos alunos, à diversidade e à realidade socioeconômica na qual está inserida.
Há neste processo, obviamente, uma violação do direito do estudante e de sua família. O cidadão não pode, por uma ação coercitiva do estado, ser privado do seu direito de escolha no que se refere à educação de seus filhos. Os jovens não podem ser privados do direito de escolher a escola e o turno no qual preferem estudar. O importante é que frequentem a escola e aprendam, e o Estado tem a obrigação de prover os meios para que esta aprendizagem ocorra de forma adequada.
No afã de demonstrar dados que supostamente justificariam o fechamento de classes noturnas, alguns dirigentes de ensino tem orientado os diretores a não anotar a demanda, ou seja, a não permitirem que os pais deixem registrados nas escolas solicitações de vagas para o ensino médio noturno.
O que a Secretaria da Educação vem fazendo é uma verdadeira “reestruturação silenciosa” da rede estadual de ensino. Na forma, ela difere daquela realizada pela então secretária Rose Neubauer em 1995, que separou escolas de 1ª a 4ª séries das de 5ª séries em diante e ensino médio, com o objetivo de facilitar a municipalização do ensino. Na essência, porém, elas são idênticas, pois são impostas por medida de força do Estado, sem dar chance à comunidade de debater o assunto.
Lembramos que a reestruturação comandada pela ex-secretária Rose Neubauer foi traumática, causou inúmeros problemas às famílias que mantinham filhos de idades diferentes nas mesmas unidades escolares (e que foram separados e algumas vezes remetidos para escolas bem mais distantes) e, no entanto, isto em nada contribuiu para a melhoria da qualidade do ensino. A “reestruturação silenciosa” que está sendo feita tende a repetir este fracasso.
* Maria Izabel Azevedo Noronha, Presidenta da Apeoesp - Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo
Follow @ThiagoResiste
APOIE O PLANTÃO BRASIL - Clique aqui!
Se você quer ajudar na luta contra Bolsonaro e a direita fascista, inscreva-se no canal do Plantão Brasil no YouTube.
O Plantão Brasil é um site independente. Se você quer ajudar na luta contra o golpismo e por um Brasil melhor, compartilhe com seus amigos e em grupos de Facebook e WhatsApp. Quanto mais gente tiver acesso às informações, menos poder terá a manipulação da mídia golpista.
Notícias mais lidas
Pesquisa Quaest mostra Flávio à frente de Lula e Thiago dos Reis aponta coincidência com reunião em Brasília
BALDE DE ÁGUA FRIA! Impedimento de Nunes Marques pega campanha de Flávio Bolsonaro de surpresa no STF
Falha grave na Polícia Civil de SP expõe governo Tarcísio e coloca sob suspeita provas de inquérito ligado a André Mendonça
