Josias vê riscos para Dilma com ruptura com PMDB
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1981 visitas - Fonte: Brasil 247
Segundo colunista, no “Brasil pós-ditadura, todos os presidentes que negligenciaram o PMDB deram-se mal; adulada, a agremiação fornece estabilidade congressual; espancada, torna-se uma força desestabilizadora”
O colunista Josias de Souza prevê riscos para a presidente Dilma Rousseff na possível ruptura com o PMDB, maior partido da base aliada. Segundo ele, no Brasil pós-ditadura, todos os presidentes que negligenciaram o PMDB deram-se mal. Leia:
Do matrimônio PT-PMDB só restou patrimônio
Como acontece com toda união baseada apenas no interesse, o matrimônio do PT com o PMDB resumiu-se ao patrimônio. A certidão de casamento é um contrato de compra e venda. O PMDB de Michel Temer vendeu tempo de propaganda eletrônica e estabilidade legislativa. Chamado a renovar o contrato, reclama que o PT de Dilma Rousseff não paga o preço que sua mercadoria vale.
De repente, os peemedebistas se deram conta de que eram felizes sob Lula e não sabiam. Sem ter o vice, levavam uma vida de amante argentina. Controlavam ministérios de alto valor político-econômico. Sob Dilma, foram empurrados para a periferia da Esplanada. Ganharam o Palácio do Jaburu, mas a residência oficial de Temer tem vista para o Lago Paranoá, não para o Tesouro Nacional.
Tratado a pão e água na mais recente reforma ministerial, o PMDB está no noticiário, pela enésima vez, pleiteando, pedindo, querendo, fazendo beicinho, ameaçando romper com o governo… Causará transtornos para Dilma no Congresso. Mas tem dificuldades para levar a ameaça de divórcio às últimas consequências.
A política é, por vezes, implacável. Partido que ambiciona o poder pelo poder erra o alvo. Mas partido que não ambiciona o poder vira o alvo. Há duas décadas sem lançar um candidato à Presidência, o PMDB especializou-se no papel de gigante subalterno. No momento, ocupa três poltronas na linha sucessória. Tem a vice-presidência da República e as presidências da Câmara e do Senado.
Com tanto poder aparente, o PMDB choraminga pelos cantos. Condenou-se a receber um tratamento de mulher de malandro. Em Brasília, apanha de Dilma. Nos Estados, enfrenta o quebra-quebra do PT. Em 2010, perdeu para o petismo o título de “maior bancada” da Câmara. E receia sair de 2014 sem o pódio do Senado.
Se pudesse, o PMDB recorreria à Lei Maria da Penha e fugiria da coligação. Mas para onde? Para uma candidatura própria?
Impossível. Faltam-lhe disposição e um candidato. Falta-lhe sobretudo a resposta para uma pergunta inexorável: que ideias defende o PMDB?
Sendo a favor de tudo e visceralmente contra qualquer coisa, poderia aderir a Eduardo Campos, o presidenciável emergente do PSB. Mas Marina Silva não deixa. Aécio Neves? Medido pelas pesquisas, o baú do tucanato ainda é pequeno. E o PMDB guia-se pelo lema segundo o qual o amor em política é coisa para amadores.
Autoconvertido em partido com fins lucrativos, resta ao PMDB o recurso da ameaça. A legenda tem do seu lado a história contemporânea. No Brasil pós-ditadura, todos os presidentes que negligenciaram o PMDB deram-se mal. Adulada, a agremiação fornece estabilidade congressual. Espancada, torna-se uma força desestabilizadora.
Sob José Sarney, o ex-apoiador da ditadura que se abrigou no PMDB para tornar-se vice de Tancredo Neves, Ulysses Guimarães funcionou como presidente paralelo. Sob Collor, quando o país descobriu que a prataria havia sumido, o presidente foi escorraçado do Planalto. Não tinha do seu lado um PMDB para livrá-lo do impeachment.
Sob a presidência-tampão de Itamar Franco, o PT recusou apoio para o Plano Real. O PMDB apoiou. Nos seus dois mandatos, FHC nomeou até Renan Calheiros para a pasta da Justiça. Mas aprovou o que bem quis no Congresso. No seu primeiro reinado, Lula esnobou um pedaço do PMDB. Deu no mensalão. No segundo reinado, Lula atraiu a ala ligada a Temer, que apoiara José Serra em 2002.
A preferência pelo papel de coadjuvante teve um custo estético para o PMDB. No passado, quando ainda era chamado de MDB, o partido tinha a cara de Ulysses Guimarães. Ficou com a fisionomia de Orestes Quércia. Ganhou o bigode de José Sarney, a sobrancelha de Jader Barbalho, a calva de Renan Calheiros… Hoje, tem a cara de Eduardo Cunha.
Num instante em que PMDB e PT trocam ofensas —é “vagabundo” pra cá, é “chantagista” pra lá— Temer e Lula tentam evitar uma crise maior entre seus respectivos correligionários.
Considerando-se que o matrimônio virou um patrimônio 100% lastreado no déficit público, isso pode ser muito ruim para o país. Mas o contribuinte em dia com o fisco não deve perder as esperanças. No momento, a indústria da intriga é a única que prospera em Brasília.
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