O “cala a boca” dos donos ectoplasmas do jatinho fantasma
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761 visitas - Fonte: Tijolaço
A Folha de hoje publica matéria que é uma espécie de “Prêmio Esso” da hipocrisia jornalística.
Anuncia que “advogados” dos empresários João Paulo Lyra e Apolo Vieira Santana estariam procurando os proprietários dos imóveis destruídos ou danificados pela queda do avião para fazer acordos de indenização ex-judiciais.
Naturalmente, claro, com “cláusula de confidencialidade” e renúncia a pedidos outros na Justiça, como faria qualquer advogado.
O famoso “cala a boca”, que aquelas famílias – sem casa e com prejuízos imensos para quem tem muito pouco- talvez não tenham mesmo como recusar.
Que o papel de ambos os empresários, um punido por omissão de transações cambiais e outro processado por contrabando, seja este, paciência.
Mas não o do jornal.
Como é que a Folha conversa com o advogado dos dois e não manifesta o interesse em ouvi-los pessoalmente, nem que seja para ouvir uma recusa?
“A Folha pediu ao advogado para conversar com os donos do avião, mas ele recusou-se a fazer o contato com os empresários”.
Era o mínimo de satisfação aos leitores.
Até porque a empresa de Apolo, a Bandeirantes de Pneus, divulgou nota oficial dizendo que o avião não era seu.
Transcrição literal da página de Jamildo Mello, editor de política do Jornal do Commercio, o mais importante de Pernambuco:
“A Bandeirantes Companhia de Pneus S.A. teve interesse na aquisição da aeronave PR-AFA, de propriedade da Cessna Finance Corporation, arrendado pela A.F. Andrade. A operação não se realizou porque estava condicionada à aprovação pela Cessna do cadastro da Bandeirantes, o que não ocorreu até a data do lamentável acidente com o avião.
Bandeirantes Companhia de Pneus S.A.”., diz o texto.
Em uma nota de esclarecimento complementar, a Bandeirantes Companhia de Pneus S.A. negou também que em algum momento tenha pago parcela de leasing da aeronave PR-AFA, de propriedade da Cessna Finance Corporation, bem como de qualquer outra despesa da aeronave, como combustível, tripulação, etc.
Agora, assume o pagamento de indenizações, diz a matéria, por ”razão humanitária”, disse o advogado ao jornal.
Adiante, o jornal publica que “não está nos planos dos empresários indenizar familiares dos pilotos e passageiros do jato”.
- ”Essa responsabilidade será apurada em momento posterior”.
Se for na linha do comportamento exibido pelo PSB em suas contas, o posterior será bem depois das eleições, não é?
Novamente não está presente a pergunta obvia: os pilotos eram contratados dos empresários, de suas empresas, de quem?
“A Folha quis saber se o piloto e o co-piloto eram contratados ou prestavam serviços aos empresários, mas o advogado recusou-se a dar informações”
“A Folha procurou os familiares do piloto e do co-piloto, mas ninguém quis dar informações”.
Que nada!
A imprensa brasileira cobriu-se de indignação quando um bobalhão usou a rede do Governo para criticar Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardemberg na Wikipédia, exigindo apuração total nos arquivos de log com centenas de milhares de acessos . Uma bobagem, mas aí está o cidadão – aliás, funcionário de carreira – identificado e punido com a perda de gratificação e um inquérito administrativo.
Mas num acidente que matou sete seres humanos e mudou o rumo da sucessão presidencial no país, nossa indignada imprensa aceita que algo simples, como dizer se é ou não é dos empresários o avião, como foi comprado e se os dois pilotos eram seus contratados, isso “será apurado num momento posterior”…
Não posso crer que um repórter se conforme com algo precário assim.
Prefiro acreditar que ele também é prisioneiro de uma teia de cumplicidades que esconde a verdade do povo brasileiro, sobre um acontecimento que, em hipótese nenhuma, merece o nome de privado.
Há sete mortes pelas quais responder e se da investigação das causas do acidente dependem as responsabilizações criminais, as cíveis não dependem originalmente.
E há, sobretudo, 200 milhões de pessoas cujas decisões que tomarão em 20 dias precisam ter como fundamento a verdade sobre em que condições se realizava um ato de campanha que tornou-se um evento dramático para os destinos do país.
O jornalismo tem muito menos – e assim deve ser – limites e constrangimentos legais para informar, apurar, revelar do que as instituições policiais e judiciais.
Mas três empresários (os dois e Eduardo Ventola, que repassou R$ 700 mil para a compra) ricos e poderosos – sim, porque dono de botequim não compra jatinho – vagam há um mês como ectoplasmas pelas ruas do Recife, sem que haja um repórter que os aborde, que os indague, que lhes peça explicações.
Aliás, deve ser o primeiro caso na história que a imprensa, mansamente, aceita e se contenta em falar com advogado de fantasmas.
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