O passado é uma roupa que já não serve mais
Compartilhe
986 visitas - Fonte: Tijolaço
No final dos anos 70, a voz inesquecível de Elis Regina cantava os versos de Belchior: “o passado é uma roupa que não nos serve mais”.
Os “saudosistas” de um passado que nem viveram – se o tivessem vivido, saudades é que não teriam – só não entendem isso porque o fanatismo não quer entender nada, mas impor tudo.
Nem é preciso discutir as razões, apenas o tempo.
Hoje, Fernando Molica escreve, em O Dia, um belo artigo para nos lembrar disso.
Ele tem razão, o Brasil chegou ao “tamanho M” – e apenas “M”, perto do que pode ser e, inexoravelmente será.
Como aconteceu com Elizabeth Eckford, leva tempo.
Mas o tempo passa adiante, não para trás.
Por mais que o queiram empurrar para lá.
Embora sempre seja preciso fazer o que fez Elizabeth: caminhar, serena e corajosamente mente, sem medo dos gritos, dos urros do que já se foi, mas teima em querer voltar.
O Brasil que chegou ao tamanho M
Fernando Molica, em O Dia
Em 1957, o fotógrafo Will Counts traduziu a história em imagem ao flagrar a ira de um grupo de brancos que tentava impedir que a jovem negra Elizabeth Eckford, de 15 anos, começasse a frequentar a melhor escola de Little Rock, no Arkansas. Ela era um dos nove estudantes negros escolhidos para cumprir decisão judicial que impedia a discriminação. Semana passada, a Universidade Federal do Espírito Santo afastou o professor Manoel Luiz Malaguti, que, em sala de aula, fizera declarações racistas.
Casos de intolerância são muito frequentes. Volta e meia, um determinado grupo reage à chegada de pessoas que consideram diferentes, temem que forasteiros quebrem um suposto equilíbrio social. É como se, de uma hora para outra, valores cultivados ao longo de gerações estivessem ameaçados pela vinda daqueles que não são vistos como semelhantes. Há também o medo de perda de privilégios, de dinheiro, de empregos — na prática, nem todos são iguais, como ressalta aquele velho ditado sobre priorizar o próprio pirão diante da escassez de farinha.
Acostumados com prestígio e fartura, muitos reagem à mudança de forma violenta. Favorecidos pela exclusão, estão tão acostumados com a injustiça que a consideram normal, natural. Dá pra imaginar o impacto que representou, para os brancos da África do Sul, o fim do mais que vergonhoso regime do apartheid. Negros que sequer podiam usar o mesmo bebedouro que eles teriam o direito até de chegar — como chegaram — à Presidência da República.
O Brasil vive uma situação que, embora bem menos radical, tem semelhanças com sociedades que vivenciaram rupturas. É como se o país digno e confortável tivesse sido planejado para ser do tamanho P, capaz de abrigar apenas uma pequena parcela dos que vivem por aqui. A estabilidade da moeda, o aumento do emprego, a maior facilidade de acesso à universidade e a criação de programas de inserção social geraram um alargamento do modelo, passamos para o tamanho M. Muita gente passou a ter uma vida melhor — “gente diferenciada”, na expressão daqueles paulistanos ricos que não queriam uma estação de metrô no bairro que dizem ser seu. A eleição serviu para destampar o ódio dos que veem o país como um condomínio fechado, que não admitem a proximidade com aqueles que consideram inferiores. Que se conformem, não tem mais volta, as pessoas se cansaram de ir à grande festa brasileira apenas para servir bebidas e limpar banheiros — é hora de todo mundo ficar bem na foto.
Follow @ThiagoResiste
APOIE O PLANTÃO BRASIL - Clique aqui!
Se você quer ajudar na luta contra Bolsonaro e a direita fascista, inscreva-se no canal do Plantão Brasil no YouTube.
O Plantão Brasil é um site independente. Se você quer ajudar na luta contra o golpismo e por um Brasil melhor, compartilhe com seus amigos e em grupos de Facebook e WhatsApp. Quanto mais gente tiver acesso às informações, menos poder terá a manipulação da mídia golpista.
Notícias mais lidas
Pesquisa Quaest mostra Flávio à frente de Lula e Thiago dos Reis aponta coincidência com reunião em Brasília
BALDE DE ÁGUA FRIA! Impedimento de Nunes Marques pega campanha de Flávio Bolsonaro de surpresa no STF
Falha grave na Polícia Civil de SP expõe governo Tarcísio e coloca sob suspeita provas de inquérito ligado a André Mendonça
