FALA GOLPISTA: NOBLAT FEZ A REDE ESGOTO VOLTAR 50 ANOS NO TEMPO
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Ao rotular o ex-presidente Lula como "uma forte ameaça à democracia", o colunista Ricardo Noblat, do Globo, fez com que o grupo de mídia dos irmãos Marinho recuasse 50 anos no tempo; em 1964, o Globo apoiou um golpe militar que atirou o Brasil nas trevas, publicando, em sua primeira página, um editorial chamado 'Ressurge a democracia'; "a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem", dizia o texto; recentemente, o Globo pediu desculpas aos leitores por sua adesão ao golpe, mas foi a proximidade com os militares que fez com que os Marinho se tornassem a família midiática mais rica do mundo; na lista da Forbes, divulgada nesta segunda-feira, soube-se que cada um dos três tem US$ 8,2 bilhões em patrimônio; será que Noblat, tomado pelo espírito de 1964, fala apenas por si ou também pelos Marinho?
A gravidade da coluna publicada nesta segunda-feira pelo colunista Ricardo Noblat, no jornal O Globo, reside na natureza do seu discurso.
Ao rotular o ex-presidente Lula como "uma forte ameaça à democracia", Noblat usou a mesma lógica empregada pelo jornal dos Marinho, em abril de 1964, quando um golpe militar atirou o Brasil nas trevas.
Como, para os Marinho, o governo de João Goulart, de natureza trabalhista, "ameaçava" a democracia, o que fosse feito para detê-lo – até mesmo um golpe de estado – seria justificável. Foi assim que, em 2 de abril de 1964, o jornal O Globo celebrou o golpe, em sua primeira página, com o editorial 'Ressurge a democracia'.
A adesão ao golpe fez com que os Marinho se tornassem a família midiática mais rica do mundo. Na lista da Forbes divulgada nesta segunda-feira, soube-se que Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto têm, cada um, um patrimônio de US$ 8,2 bilhões.
Juntos, eles somam quase US$ 25 bilhões. E não há empresa de comunicação no mundo cujos donos cheguem perto desse patrimônio. O motivo é um só: a concentração da mídia no Brasil. E é justamente essa a ameaça que Lula representa para os Marinho, caso, efetivamente, concorra à presidência da República em 2018.
Em agosto do ano passado, o jornal O Globo finalmente reconheceu que seu apoio ao golpe de 1964 foi um erro editorial. No entanto, um texto como o de Ricardo Noblat, publicado nesta segunda-feira, deixa no ar a dúvida sobre a sinceridade daquele arrependimento.
Afinal, a natureza do discurso é exatamente a mesma. Lula "ameaça" a democracia hoje, assim como João Goulart a "ameaçava" em 1964.
Leia, abaixo, o editorial do Globo de 2 de abril de 1964:
“Ressurge a Democracia”
Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.
Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.
Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.
Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.
Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo.
As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, “são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI.”
No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei.
Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.
Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.
A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer ideia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.
Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor.”
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