Prevendo ditadura religiosa, Michelle Bolsonaro já manda retirar todas imagens sacras do Planalto, que não é nem a casa dela

Mauro Lopes, editor do 247 e do Jornalistas pela Democracia - Quando Michelle Bolsonaro manda que obras de arte sacras sejam removidas do Palácio do Alvorada ela não está tomando uma decisão caseira, de alguém que está reorganizando a decoração de seu lar. Ela é casada com o futuro presidente da República, Jair, e o Palácio do Alvorada não é a casa deles, é a residência oficial da Presidência da República. Portanto, ela e seu marido são apenas inquilinos de um prédio público, que é patrimônio do povo brasileiro. E, na qualidade de presidente e primeira-dama, os gestos do casal não são "privados". São sempre simbólicos, têm a força de sinalizar para o país qual o caminho a seguir. Michelle e Jair -sim, a decisão não pode ser reputada a ela como "dona de casa"- com este e outros gestos estão indicando ao Brasil: é tempo de guerra à história, à memória e à espiritualidade do povo brasileiro. Mais ainda: a ordem para remoção de obras de arte não se restringe ao Alvorada, mas atinge também o Palácio do Planalto, sede do governo.
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Não se deve confundir as coisas. Não se trata de "opção religiosa" de um casal evangélico que não suporta ver imagens de santos. Michelle frequenta a Igreja Batista Atitude, no Rio de Janeiro, e o marido foi batizado em 2016 na igreja Assembleia de Deus. As denominações protestantes e em especial os fundamentalistas neopentecostais renegam a veneração a imagens de santos. Mas não é dessa posição privada, íntima, do primeiro-casal que se trata. Mesmo porque durante a campanha eleitoral, Jair Bolsonaro se deixou fotografar diversas vezes tendo ao fundo uma imagem de Nossa Senhora Aparecida em sua casa, no Rio. Não. Trata-se de guerra à memória e hostilidade embarcada na lógica fundamentalista.
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Pois não são "imagens de santos" que estão sendo removidas do Alvorada. São cinco peças de simbologia católica: um par de anjos barrocos tocheiros, na biblioteca, e quatro estátuas de santos nas salas de música e de estado. Uma das imagens é uma representação em madeira de Santa Bárbara, do século 18. É a história do país que está sendo removida, muito além de qualquer símbolo religioso.
Há sim um ataque de fundo religioso, gravíssimo. Mas ele sequer acontece no Alvorada e o alvo não é a religião católica. Acontecerá no Palácio do Planalto. Lá será removido um grande quadro, a obra "Três Orixás", da pintora Djanira da Motta e Silva. O primeiro casal, ao remover uma obra de arte que evoca divindades do candomblé, está sancionando, autorizando simbolicamente que continuem os ataques dos fundamentalistas aos terreiros das religiões afro do país. É o que faz Bolsonaro, em outra esfera, quando ataca impiedosamente os indígenas, os quilombolas e sem terra. Por sua condição de presidente eleito, está sinalizando aos ruralistas: podem atacar à vontade. E eles estão fazendo isso.
O que Michelle e Bolsonaro estão sinalizando, com a remoção das obras de arte sacra no Alvorada e no Planalto, é que o tempo da paz acabou definitivamente. É tempo de guerra. Guerra à história, à memória e à espiritualidade sincrética e colorida do Brasil.
Fonte: Brasil247

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