Segurança

Após baterem em professora, policiais homens ameaçam médico para não registrar lesões

Originalmente publicado na Ponte:

A professora de Sociologia Camila Marques, 34 anos, foi presa, algemada e teve o celular apreendido por policiais civis de Goiás na manhã desta segunda-feira (15), enquanto dava aulas no campus de Águas Lindas do IFG (Instituto Federal de Goiás). Segundo ela, os policiais teriam intimidado o médico que realizou o exame de corpo de delito para não apontar agressões praticadas por eles.

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Marques aplicava uma atividade aos estudantes quando soube de uma movimentação estranha de policiais no instituto. Os policiais apontavam que estavam à procura de alunos suspeitos de planejar um ataque, conforme informa a Polícia Civil goiana. “Quando eu vi a truculência deles com meus alunos decidi filmar”, conta à Ponte Jornalismo.

Os policiais tentaram impedi Camila, que também é coordenadora-geral do Sinasefe (Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica), mas ela continuou filmando. “Eles disseram que a operação era sigilosa porque se tratava de menores, mas eu não filmava os meninos, apenas os policiais”, conta. A professora relata o que viveu em vídeo publicado nas redes sociais pelo Sinasefe (veja abaixo).

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Ainda na instituição, a professora foi avisada de que seria levada à delegacia como testemunha da operação. Além dela, estavam sendo conduzidos uma aluna e dois alunos. “Os três são negros e têm, além de bom histórico na escola, militância estudantil”, salienta Marques. “Eu pedi para que chamassem os pais, apoio do IFG e Conselho Tutelar, mas eles disseram que iam levar primeiro à delegacia”, explica a professora.

“Quando o policial me mandou entrar em uma viatura descaracterizada, pedi para consultar um advogado. Peguei o celular para ligar e eles o tomaram violentamente e me algemaram na frente dos meus alunos, na escola que dou aulas”, diz. “Ele foi tão agressivo que machucou minha mão ao tomar o celular. Enquanto eu questionava, eles mandavam eu calar a boca o tempo todo”, dizia.

Algemada, a professora insistiu que queria falar com um advogado. “Na delegacia não me deixavam fazer ligações e repetiam que eu não mandava lá”, lembra. Segundo a professora, enquanto era atendida por um médico, os policiais influenciavam o tempo todo no diagnóstico. “Chegaram a gritar comigo lá dentro quando falei que tinha sido agredida”, conta.

Em nota enviada à imprensa, a Polícia Civil de Goiás informa que a professora foi encaminhada à Delegacia de Polícia de Águas Lindas por “cometer o crime de desobediência”.

“Na delegacia, foi autuada mediante TCO (Termo Circunstanciado de Ocorrência) e liberada em seguida. A autuação foi feita após ela ter filmado a abordagem dos policiais na escola, quando os investigadores apuravam uma denúncia, a pedido do próprio diretor, de que adolescentes planejavam um ataque nos moldes do ocorrido em Suzano (SP)”, sustenta a corporação.

A professora, no entanto, considera a acusação “estranha”. “Acusam três alunos negros, de periferia, que participam de movimento estudantil. Isso é muito estranho”, pontua.

Ainda segundo a nota da Polícia Civil, “a professora foi advertida por três vezes pelos policiais civis para que não filmasse a abordagem, uma vez que os adolescentes têm proteção à sua imagem, conforme o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), ordem que ela desobedeceu”, diz a polícia.

Nada que incriminasse os estudantes foi encontrado pelos policiais em relação à denúncia de um possível ataque. O delegado Danilo Victor Nunes Souza nega que a professora tenha sido agredida por policiais civis.

Ainda conforme nota da Polícia Civil, foi feito relatório médico e raio-x, que não constataram nenhuma lesão a ela. O médico que atendeu a professora, no entanto, lhe receitou um Flancox, remédio para dores musculares, conforme receita obtida pela Ponte. Quando saíram do hospital, segundo a professora, um dos policiais confiscou a receita. “Ele disse que só devolveria ao meu advogado”, explica.

Procurada pela Ponte Jornalismo, a assessoria de imprensa da Polícia Civil informou que “nesses casos é feito relatório médico, não ‘receita’”, argumenta.

Fonte: diário do centro do mundo

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