Brasil

Impacto do covid-19 no Brasil é retratado pelas 13 mil valas que Bruno Covas manda abrir no maior cemitério da América Latina

Novos túmulos no Brasil retratam o impacto da pandemia de coronavírus
Prefeito de SP anuncia 13.000 valas extras nos cemitérios, enquanto especialistas advertem que número real é bem superior aos 4.205 mortos oficiais. Assim se adapta o maior cemitério da América Latina
NAIARA GALARRAGA GORTÁZAR
São Paulo - 26 ABR 2020 - 01:52 CEST

Antes mesmo do coronavírus, era difícil conseguir um emprego com bom salário no Brasil. Por isso Rodrigo, de 35 anos, pode se considerar um homem de sorte. Ele é um dos 220 coveiros recém-contratados pelo maior cemitério da América Latina, o de Vila Formosa, em São Paulo. A crise da Covid-19 obrigou o estabelecimento a buscar mais funcionários para a função, já que a maioria dos seus coveiros estava no grupo de risco por causa da idade e foi enviada para casa. Seu contrato é de seis meses, e dos mais cobiçados, com contribuição previdenciária. O número de enterros aumentou 20% com a pandemia, diz um empregado com anos de ofício. Ele pede anonimato porque não tem autorização para falar com a imprensa. “Antes havia cerca de 40 enterros por dia, agora chegam a 52”, afirma.

Todos os países têm problemas de subnotificação de casos, mas existe o temor de que a questão no Brasil seja muito mais grave. O problema da saturação nos hospitais e necrotérios, as 13.000 valas adicionais anunciadas por Bruno Covas, prefeito de São Paulo, e os poucos testes realizados indicam que o impacto da epidemia é muito maior que o retratado pelas cifras oficiais. As autoridades confirmaram 4.205 mortes (40% delas na última semana) e mais de 61.000 contágios. Os casos de milhares de hospitalizados com síndrome respiratória aguda nas últimas semanas ainda precisam ser investigados.
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Domingos Alves, professor de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, explica que, além das cifras do Ministério da Saúde, ele analisa registros de cartórios relativos a pessoas falecidas com insuficiência respiratória e pneumonia através do portal de transparência. “As discrepâncias podem chegar a ser o dobro ou o triplo em alguns municípios”, adverte. Os casos reais podem ser 12 vezes mais que os contabilizados, segundo estimativas de um recente relatório de um consórcio de universidades e institutos de pesquisa.

O professor Alves salienta que o Brasil é tão enorme e tão desigual que inclui dinâmicas diferentes, porque nem sequer a qualidade do SUS (Sistema Único de Saúde), que atende os 210 milhões de habitantes, é homogênea. Os especialistas como ele estão surpresos com os altos índices de casos e mortes em cidades como Fortaleza, Manaus e Macapá, a milhares de quilômetros das maiores urbes, mas cujo sistema de saúde é mais frágil. Alves aponta um segundo fenômeno preocupante. Os contágios se distribuem de maneira mais igualitária que as mortes. Em São Paulo e no Rio, as mais afetadas e onde a doença chegou pelas classes altas, “estamos vendo que esta epidemia tem uma taxa de letalidade maior para as classes com mais problemas sociais e em faixas etárias mais jovens”, observa Alves.

Com 407 novas mortes, a quinta-feira passada foi o dia mais letal desde o primeiro contágio, há oito semanas. Silvana Alves Bezerra, de 56 anos, espera com outros parentes, na entrada do cemitério, a chegada do caixão lacrado com seu irmão, que morreu na véspera, após 14 dias internado. Sabem que contraiu a covid-19. “O resultado só saiu ontem (na quarta-feira). Mas, quando chegou, ele já tinha nos deixado. Essas análises são muito lentas”, lamenta.
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Conhecer seu diagnóstico ajudará os epidemiologistas a calibrarem a epidemia, mas para a família significa um velório expresso. Pouco mais. Os próximos de Alves Bezerra acabam de ser informados que só poderão velá-lo por 10 minutos. Será enterrado pelos coveiros de macacão branco que atendem os casos confirmados e suspeitos.

O cemitério da Vila Formosa foi dos primeiros em ampliarem sua capacidade por causa da pandemia. Os coveiros abriram na última semana 600 novas sepulturas nesta terra avermelhada que é o descanso final de 1,5 milhão de falecidos. Logo se somarão 13.000 sepulturas a mais nos cemitérios municipais, conforme anunciou o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, porque “o pior está por vir”. Não quer que se repitam as cenas do Equador ou Nova York.

Manaus, a maior cidade da Amazônia, onde as UTIs já estão saturadas, começou a fazer sepulturas coletivas. E comandantes militares estão perguntando oficialmente sobre a capacidade de enfrentar enterros maciços. “Se o Exército pergunta isso é porque está fazendo uma análise estatística quanto à possibilidade de que haja um caos na saúde pública”, advertiu o prefeito aos seus cidadãos, revelando o pedido em um vídeo a seus moradores para insistir na importância do confinamento.

O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, diz desconhecer se o incremento dos últimos dias significa que os contágios aceleraram ou se é resultado de casos antigos que estavam na fila para serem testados. As autoridade sanitárias tardaram em conseguir comprar os testes, mas agora a capacidade de processá-los é insuficiente e a logística para recoletar e analisar amostras é complexa. Alves considera “temerário” que alguns Estados e municípios estejam relaxando as medidas de contenção “sem ter uma gestão adequada dos dados”. Ainda que todas as escolas continuem fechadas, algumas cidades, como Florianópolis, abriram até shopping centers.

Fonte: El Pais Brasil

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