Política

A influência nefasta de Bolsonaro na falta de adesão ao isolamento é provada por análise de geolocalização

Dados de celulares mostram impacto de discurso de Bolsonaro em isolamento
06/04/2020 17h06 Atualizada em 07/04/2020 00h03
Diogo Schelp

As idas e vindas na retórica adotada pelo presidente Jair Bolsonaro em relação ao isolamento social para conter o avanço da contaminação pelo novo coronavírus podem estar influenciando o nível de adesão de parte da população a essa medida. É o que sugere a análise de dados de geolocalização de cerca de 60 milhões de celulares em todo o Brasil compilados pela startup In Loco.

"O discurso descompassado entre o presidente e o Ministério da Saúde gera muita confusão e desinformação na população", diz o infectologista Júlio Croda, que recentemente deixou a diretoria do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do ministério por insistir na promoção do isolamento social como estratégia para conter a pandemia.

A empresa In Loco criou um índice de isolamento social, que nada mais é que a proporção de celulares que não são retirados durante o dia do local onde costumam passar a noite, o que indica que seus proprietários estão permanecendo em casa. A margem de erro médio da localização é de 3 metros. Ou seja, a tecnologia é bastante precisa.
O gráfico abaixo mostra a evolução do índice de isolamento social. Os picos indicam os dias em que uma proporção maior dos celulares monitorados (e portanto seus donos) ficou em um mesmo local.

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Bolsonaro considera excessivas as políticas adotadas pelos governos dos estados e as recomendações de isolamento feitas pelo seu próprio Ministério da Saúde, mas a intensidade com que se manifestou contra elas nas últimas semanas variou bastante.

Quando se compara o gráfico da In Loco com as principais declarações ou os atos do presidente relacionados ao tema do isolamento, observa-se que, nos dias seguintes, a porcentagem de pessoas que permanecem em casa costuma cair. Nos intervalos entre um pronunciamento e outro ou quando Bolsonaro ameniza o discurso, o índice de isolamento volta a subir ou estabiliza.

A primeira vez em que a proporção de pessoas que não saíram de casa ficou acima de 50%, por exemplo, foi no dia 15 de março. É preciso lembrar que, nos dias anteriores, o país viveu um intenso
debate sobre os riscos de se convocar manifestações em apoio ao presidente em meio à epidemia e até grupos organizados da base bolsonarista recomendavam que a militância ficasse em casa. Além disso, governadores anunciavam medidas de restrições a serem adotadas a partir da semana seguinte.
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No dia 15, porém, sem aviso prévio, o presidente resolveu confraternizar com os manifestantes em Brasília, contra todas as indicações de sanitárias — e contra o bom senso, já integrantes do seu governo haviam testado positivo para covid-19 e o próprio presidente podia estar infectado.

No dia seguinte às cenas de Bolsonaro tirando foto de rosto colado com apoiadores, o índice de isolamento social monitorado pela In Loco despencou de 51,3% para 38,5%. No dia 17, caiu ainda mais, para 29,9%.

Depois de uma enxurrada de críticas à postura de Bolsonaro, o governo adotou algumas medidas de contenção da epidemia, como o fechamento da fronteira com a Venezuela. No próprio dia 17, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, confirmou a primeira morte por covid-19 no Brasil. A partir daí, o índice de isolamento social voltou a subir, chegando ao pico de 69,5%, mais de dois terços dos celulares monitorados, no dia 22 de março, um domingo.

O presidente, no entanto, havia voltado à carga contra as medidas de isolamento. No próprio dia 22, ele criticou o "alarmismo" em torno da doença e disse que a epidemia no Brasil não ia ser tão ruim por causa do clima e porque a população de idosos é menor do na Itália. No dia 24, ele fez o desde já histórico pronunciamento em cadeia nacional em que comparou a covid-19 a uma "gripezinha" e defendeu o chamado "isolamento vertical", pelo qual apenas idosos e pessoas com certas doenças preexistentes ficariam em casa.
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A partir daí, o índice de isolamento social oscilou para baixo, chegando a 47,2% no dia 1 de abril, registrando picos mais modestos nos finais de semana (64,2% no dia 29, um domingo, e 53,9% no último dia 4, um sábado).

Evidentemente, as falas do presidente não seriam capazes de explicar inteiramente a maior ou menor adesão da população ao isolamento social, mas de fato há uma coincidência de datas entre os momentos de maior embate de Bolsonaro contra essa medida e o aumento na proporção de pessoas que sai de casa.

Essa possível relação, no entanto, torna-se mais difusa nos últimos dias. Estariam os brasileiros dando cada vez menos ouvidos ao presidente?

Fonte: UOL

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