Ministério dos Direitos Humanos mantém contato com Associação que dissemina ódio nos EUA

O governo brasileiro tem mantido contato com uma das entidades americanas consideradas como ponta de lança de um projeto antiaborto e ultraconservador, a Alliance Defending Freedom (ADF International). O grupo ampliou sua influência durante a gestão de Donald Trump e passou a ser classificado por monitores de extremismo como um "grupo de ódio".
[bn2][/bn2]
Procurada pela reportagem, a ADF não respondeu aos pedidos de esclarecimento. Já o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, ponto de contato entre a entidade e a gestão Bolsonaro, confirmou que "interage" com a organização americana.
"Os princípios compartilhados com a ADF, em geral, referem-se à defesa dos valores humanos", respondeu o ministério sobre a entidade nos Estados Unidos (EUA).
[bn2][/bn2]
A pasta ainda sustentou a explicação da própria ADF ao ser questionada se não havia um desconforto em manter encontros e eventos com uma entidade classificada como "grupo de ódio".
"De fato, até o momento, nas interações com a ADF, não identificamos nenhum posicionamento radical ou desrespeitoso para com qualquer segmento social. Por outro lado, o que visamos efetivamente, não é o ódio, mas o fortalecimento de vínculos familiares, cidadãos, sociais e internacionais com um profundo respeito ao pluralismo", completou o governo brasileiro.
Nos últimos meses, a coluna vem revelando como o governo brasileiro modificou de forma substancial seu posicionamento internacional em temas relacionados com os direitos das mulheres.
[bn1][/bn1]
Agenda antiaborto
O Brasil passou a tentar vetar artigos em resoluções que pudessem ser interpretadas como uma brecha para o reconhecimento do aborto como uma opção legal, referências à saúde sexual e direitos reprodutivos. Agiu ainda para tentar incluir a referência ao papel das entidades religiosas na defesa dos direitos das mulheres.
Em Brasília, funcionários do Estado envolvidos com o processo de formação da postura do Brasil na ONU revelaram como o governo se aproximou da ADF.
Um dos temas comuns é a questão do aborto. Em seu site, a entidade americana chega a alertar para a existência de uma "indústria inteira que lucra com cada criança morta no útero".
[bn2][/bn2]
Um dos apelos do grupo é para que a sociedade "reconheça a dignidade humana dos bebês não nascidos" e que "proteção legal" deveria ser garantida a eles.
"O aborto legal não protege as mulheres. O aborto certamente mata os bebês no útero, mas também pode levar à lesão ou à morte da mãe. A Alliance Defending Freedom tem auxiliado os advogados aliados no litígio de vários desses casos e continuará a proteger o bem-estar físico tanto da mãe quanto do filho", argumenta a ADF.
Associação mantém aliança com 3.000 advogados nos EUA
Com essas e outras plataformas, a entidade se transformou, nos últimos anos, num dos grupos de pressão mais influentes nos EUA. Com um orçamento de mais de US$ 50 milhões, 60 funcionários permanentes e mais de 3.000 advogados em seus casos, a organização soma 54 vitórias em processos na Corte Suprema americana.
[bn2][/bn2]
Sob a administração de Trump, o grupo ainda ganhou acesso aos principais corredores do poder. A ADF ainda ganhou espaço na imprensa americana ao defender um confeiteiro que se negou a fazer um bolo de casamento para um casal homossexual.
Nesse processo de expansão da ADF, a relação com o Brasil se fortaleceu com a gestão de Damares Alves no Ministério de Direitos Humanos. Em meados de 2019, ela aproveitou uma viagem aos EUA para se reunir com a entidade, em Washington. Ela ainda esteve no Departamento de Estado norte-americano.
Dias antes, o Brasil decidiu participar de um evento patrocinado na ONU, em Genebra (Suíça), pela ADF International. O tema: a liberdade religiosa. O governo aproveitou o evento para denunciar a suposta perseguição contra cristãos.
[bn1][/bn1]
Representantes da mesma organização têm feito parte de reuniões entre a pasta de Direitos Humanos e o Itamaraty. No dia 22 de maio de 2020, por exemplo, um encontro ocorreu envolvendo deputados brasileiros, representantes do Itamaraty, do Ministério de Direitos Humanos e Tomás Henriquez, da ADF Chile.
Nos EUA, ADF é acusada de ser grupo de ódio
Em 2017, o senador americano Al Franken já afirmava que entidade seria um "grupo de ódio", algo contestado pelo grupo religioso.
Ele se referia a uma classificação anunciada pela entidade Southern Poverty Law Center (SPLC), que tem focado seus esforços em mapear grupos de ódio nos EUA, além de combater o racismo e injustiças. Seus especialistas concentram seu trabalho no monitoramento de grupos extremistas.
[bn2][/bn2]
A SPLC explicou que tal classificação foi estabelecida diante da postura da ADF contra grupos LGBT. "ADF difunde mentiras sobre a comunidade LGBT", diz o Southern Poverty Law Center.
"Por exemplo, ela vinculou o fato de ser LGBTQ+ à pedofilia e alegou que uma "agenda homossexual" irá destruir a sociedade", explicou o SPLC. "A ADF tenta expressar sua retórica em frases benignas, mas a verdade é que ela trabalha para desumanizar as pessoas LGBTQ+ e restringir seus direitos de serem quem são", alerta.
Outros exemplos estão as defesas de advogados do grupo a estudantes que tentam distribuir panfletos religiosos em universidades e processos contra pessoas transgênero. O grupo ainda providenciou uma defesa para uma proprietária de uma floricultura que se recusou a fornecer arranjos florais para um casal entre duas pessoas do mesmo sexo.
[bn1][/bn1]
Associação nega as acusações e questiona detratores
A ADF, porém, rejeita ser classificado como "grupo de ódio", nega qualquer tipo de extremismo e questiona a credibilidade da SPLC. Para ele, trata-se "organização politicamente partidária e voltada para a captação de recursos".
"Enquanto o SPLC fez um bom trabalho décadas atrás lutando contra a segregação no Sul, ele se tornou uma organização não confiável, cheia de escândalos e ativista de extrema esquerda que ataca qualquer um que discorde de sua estreita agenda política", acusa a ADF.
Nos últimos anos, a organização deixou o território americano e, segundo grupos de ativistas e feministas, passou a exportar ideia como a de contestar direitos reprodutivos e sexuais em documentos da ONU.
[bn1][/bn1]
A entidade ainda montou escritórios em diversas partes do mundo e passou a dar assistência legal para casos nos tribunais da Suécia, Colômbia, Reino Unido e vários outros lugares.
Entidade brasileira com presença de Damares acompanha ADF pelo menos desde 2012
Anos antes, a Associação Nacional de Juristas Evangélicos estabeleceu um acordo com a ADF. A associação brasileira tinha, como membro em 2012 e 2013, a advogada e pastora Damares Alves.
Num comunicado que anunciava o projeto, chamado de Blackstone Legal Fellowship, a associação indicou que a parceria tinha como objetivo "enviar estudantes evangélicos brasileiros que cursam direito para fazer um estágio intensivo nos EUA".
Numa recente reportagem, o jornal The Guardian ainda revela como, em Belize, o ADF deu apoio a uma organização que pressionava para criminalizar o sexo entre duas pessoas do mesmo sexo, enquanto na Índia seu representante comemorou decisões dos tribunais contra gays. Já na Romênia, a entidade apoiou um referendo para tentar impedir a união civil entre pessoas do mesmo sexo.
[bn2][/bn2]
Num caso na Corte Europeia de Direitos Humanos sobre pessoas transgênero, advogados da ADF argumentaram que "igualdade de dignidade não significa que toda orientação sexual merece o mesmo respeito".
Em sua argumentação, os advogados ainda usaram termos ultrapassados e hoje rejeitados na OMS para designar trans como uma "desordem mental".
Para quem acompanha a história do grupo, isso não deve surpreender já que um de seus fundadores, Alan Sears, é autor de um livro: "A Agenda Homossexual - Expondo a principal ameaça contra a liberdade religiosa hoje".
Fonte: UOL

O que você acha desta notícia?
Seja o primeiro a compartilhar sua opinião.