Recuperação do PIB americano pode não ser a virada para Trump

WASHINGTON — A recuperação da economia americana — com um crescimento de 33,1% no terceiro trimestre, na taxa anualizada, a maior velocidade já registrada desde a Segunda Guerra Mundial — é música para os ouvidos de Donald Trump. Mas talvez seja cedo demais para comemorar.
[bn2][/bn2]
A campanha do candidato à reeleição prontamente afirmou após a divulgação dos resultados que os números mostram que a economia volta aos trilhos após o lockdown imposto pela pandemia. O indicador é o último dado econômico a ser divulgado antes da eleição em 3 de novembro.
Mas essa narrativa de recuperação encontra pouco respaldo nos números que vão além da miragem do crescimento de 33,1% entre julho e setembro. Para o eleitor, a retomada da economia ainda não chegou ao cotidiano. Para o americano médio, bem-estar é emprego, algo que ainda está longe do período pré-Covid.
De acordo com dados do Departamento de Trabalho, 23 milhões de americanos recebem algum tipo de benefício voltado para os desempregados.
[bn1][/bn1]
Dois programas atendem 13,5 milhões de pessoas. Um deles prorroga por 13 semanas a ajuda após o fim do período do seguro-desemprego e outro oferece auxílio a trabalhadores de meio período ou freelancers, que não se qualificam para ter acesso ao benefício trabalhista.
E até mesmo estas medidas estão em risco, pois dependem do Congresso para que sejam prorrogadas após dezembro.
Milhões de profissionais que perderam o emprego no início da pandemia ainda não conseguiram voltar ao trabalho em uma crise que foi particularmente difícil para os pequenos negócios.
Economistas temem que o desemprego na pandemia se torne desemprego de longo prazo.
[bn2][/bn2]
Na última semana, 732 mil trabalhadores entraram com pedido de seguro-desemprego. O número representa uma melhora em relação ao período anterior, mas ainda está longe de significar tranquilidade. Muitas grandes companhias preparam novas rodadas de demissões e fechamento de vagas até o fim do ano.
Considerando o ritmo de criação de postos de trabalho nos EUA em setembro, o país levaria mais 16 meses para recuperar todos os empregos perdidos durante a pandemia.
Os estímulos criados para ajudar os americanos começam a secar e nem mesmo uma crise sem precedentes parece capaz de fazer com que democratas e republicanos consigam superar divergências em prol do bem-estar dos americanos.
[bn1][/bn1]
O cenário para o quarto trimestre por enquanto é uma combinação de ajuda mais escassa com aumento dos casos de Covid-19, o que pode representar uma economia com fôlego mais curto.
Em uma economia fortemente dependente do consumo, os americanos, assim como os brasileiros, redescobriram a necessidade do "conforto do lar" durante a pandemia.
Gastaram mais em automóveis e bens duráveis no terceiro trimestre para se adaptar a um estilo de vida muito mais caseiro do que antes.
Na China: PIB sobe 4,9% no 3º trimestre, e peso do país na economia global deve crescer
Mas os gastos com serviços, como restaurantes, academias e férias, embora tenham crescido entre julho e setembro, ainda estão bem abaixo do período antes da Covid-19.
[bn2][/bn2]
Com o novo avanço do vírus, estes setores, marcados também pela presença de pequenos negócios, que poderiam criar vagas e absorver parte da mão de obra disponível, encolhem.
O mercado de ações, que caiu 6% na semana, já antecipa o risco de queda na demanda diante de um possível aumento de casos, acompanhado de medidas restritivas.
Mais do que um sinal de retomada forte da atividade, o resultado doterceiro trimestre é na avaliação de especialistas um retrato do tamanho do tombo que a economia sofreu entre abril e junho.
Mesmo com a maior recuperação já registrada, o país ainda opera em patamar inferior ao de antes da pandemia. Por ora, a maior recuperação da história ainda é mais discurso de campanha do que um dado de realidade para famílias e empresas americanas.
Fonte: O Globo

O que você acha desta notícia?
Seja o primeiro a compartilhar sua opinião.