A Índia fez Bolsonaro sentir o gosto amargo do nacionalismo tão defendido por ele e seus seguidores

A dificuldade do governo de Jair Bolsonaro em obter as vacinas fabricadas na Índia não é aduaneira e nem científica. Tampouco se trata de um problema de transporte e nem de um risco de calote. Brasília, no fundo, esbarra em outro obstáculo: o nacionalismo do governo indiano.
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Neste fim de semana, Nova Déli inicia sua vacinação em massa, prevendo 600 milhões de doses para os próximos meses.
O governo ultranacionalista indiano tem sido pressionado por sua base mais radical a demonstrar agora que esse caráter do discurso do primeiro-ministro Narendra Modi vai além das palavras. Diplomatas na Índia confirmaram à coluna que um dos aspectos para fechar essa equação das entregas ao Brasil era a questão política.
Foi justamente esse nacionalismo que aproximou os dois líderes. No ano passado, Modi convidou Bolsonaro para a celebração do dia nacional do país. O indiano é acusado de fazer uma campanha nacionalista, de atacar minorias e até de minar o caráter de diversidade do país. Seus laços com líderes da extrema-direita também têm sido alvo de polêmicas.
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Seu convite ao brasileiro para que estivesse ao seu lado na principal festa do país foi alvo de duras críticas. "Ele se perdeu ao chamar Bolsonaro, um homem que o mundo tenta ficar distante", disse Kavita Krishnan, representante da All India Progressive Women’s Association, em entrevista ao HuffPost India. A data do 26 de janeiro é, para muitos no país, uma celebração da Constituição, da liberdade e da democracia. Bolsonaro, ali, seria uma ofensa.
No caso da vacina, a narrativa nacionalista do governo indiano sequestrou o debate. A promessa do governo foi de que, antes de cumprir qualquer acordo que já havia sido fechado no exterior, as fábricas indianas abasteceriam o mercado doméstico.
O problema é que, produzindo 60% das vacinas do mundo para todas as demais doenças, a Índia é indispensável para que empresas como a AstraZeneca possam cumprir seus acordos bilionários já assinados com governos de todo o mundo.
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Além disso, para não ter de importar, o país acelerou a aprovação de produtos locais. A falta de transparência gerou duras críticas.
O "nacionalismo de vacinas" da Índia seria a tradução da política de Modi conhecido como "atmanirbhar Bharat". Ou "Índia resiliente", uma tradução do "America first" de Trump.
Assim, no processo de aprovação da vacina no país, passou a ser "antipatriótico" questionar a eficácia do imunizante e quando cientistas pediam dados ou alertavam que a fase 3 de testes sequer tinha sido concluída no caso da Bharat Biotech, foram alvos de ataques coordenados nas redes sociais por apoiadores do BJP, o partido nacionalista de Modi.
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Bolsonaro contava com sua boa relação com o presidente indiano para conseguir a liberação das doses. Mas, de uma forma irônica e trágica, descobriu os limites do nacionalismo, o último recurso dos vendedores de ilusão.
Fonte: UOL

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