Bolsonaro e Ciro Nogueira mentem quando falam que bancos tiveram prejuízo com o PIX

O presidente Jair Bolsonaro repetiu, nesta quinta-feira (28), a afirmação de seu ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, de que banqueiros estão assinando manifestos em defesa da democracia e da lisura do processo eleitoral porque estão perdendo dinheiro com o avanço do Pix. O Pix é uma ferramenta eletrônica gratuita de transferência instantânea de recursos, desenvolvida e regulada pelo Banco Central.
"Você pode ver, esse negócio de carta aos brasileiros, à democracia, os banqueiros estão patrocinando. É o Pix que eu dei paulada neles, os bancos digitais que nós facilitamos", disse Bolsonaro a apoiadores, no cercadinho do Palácio da Alvorada. "Estamos acabando com o monopólio dos bancos. Eles estão perdendo poder. Carta pela democracia... Qual ameaça que eu estou oferecendo para a democracia?", completou.
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Em mensagem no Twitter, nesta terça-feira (26), Nogueira já vinculara o sucesso do Pix a uma suposta perda pelos bancos de R$ 40 bilhões em tarifas de transações bancárias. A ferramenta, que pode ser usada em celulares, começou a ser desenvolvida em 2018, no governo Temer, sob a presidência de Ilan Goldfajn no Banco Central, e começou a ser operada em novembro de 2020, no governo Bolsonaro.
O volume de dinheiro mencionado é um chute e o argumento, falso. Depois da afirmação de Nogueira sobre as perdas de R$ 40 bilhões dos bancos com o Pix, em sua live desta quinta-feira (28), Bolsonaro mencionou que as perdas em 2022 seriam de R$ 22 bilhões, metade do mencionado por seu ministro e líder das articulações do governo no Congresso.
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Já o argumento é falso porque não é verdade que os bancos "estão perdendo" com o Pix. Para começar, é preciso considerar o que o sistema está economizando com a redução do manejo de dinheiro nas agências e caixas eletrônicos. O próprio Banco Central informou, em novembro de 2021, pouco depois de um ano de efetivo funcionamento do Pix, que tinha havido, no período, uma queda de R$ 40 bilhões na quantidade de cédulas de dinheiro em circulação.
Só com transporte de dinheiro, segundo levantamentos do próprio setor, os custos somam mais de R$ 10 bilhões por ano. Essa quantia deve chegar facilmente ao dobro se forem consideradas as despesas com segurança, abastecimento dos caixas e custódia do dinheiro vivo. É de se imaginar o custo de manter devidamente abastecidas de dinheiro não só as 17,5 mil agências bancárias como os 150 mil caixas eletrônicos atualmente em operação.
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Outra grande vantagem do Pix para os bancos reside na atração de novos clientes. A adesão ao Pix está promovendo uma intensa bancarização da população, fazendo com que, ao mesmo tempo em que ganham mercado para a oferta de serviços, os bancos possam reduzir custos com a manutenção de agências físicas, à medida em que menos dinheiro vivo é usado nas transações. De 2013 para cá, o número de agências já caiu 25%, e o processo se acelerou depois da implantação do Pix. Entre 2020 e 2021, período em que o Pix já estava disponível, foram fechadas mais de 10% agências das anteriormente existentes.
Não é difícil entender essa linha descendente no número de agências físicas diante dos números gigantes do Pix. Desde a implantação da ferramenta, em pouco mais de um ano e meio, foram realizadas quase 15 bilhões de transações, envolvendo volumosos R$ 7,5 trilhões. São cerca de 120 milhões de usuários, dos quais mais de 90% pessoas físicas, que já cadastraram mais de 450 milhões de chaves de operação.
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Levantamentos de abril do ano passado a março de 2022 mostram redução de 20 milhões de transações eletrônicas convencionais e 15 milhões com boletos, possivelmente substituídos por operações via Pix. Mas a tendência de modalidades de transação como transferências eletrônica convencionais, TEDs e boletos é de estabilidade em níveis bem abaixo da movimentação por Pix e cartões de débito ou de crédito. Especialistas concluem que está havendo mais incorporação de usuários de Pix antes fora do sistema bancário do que canibalização de modalidades de transferência, e também do uso de cartões, por novos clientes.
Resumindo a história, por todas as razões são falsas as afirmações de Bolsonaro e Nogueira segundo as quais a adesão de banqueiros aos manifestos em defesa da democracia se devem a perdas financeiras com o Pix. Primeiro de tudo porque os grandes bancos continuam obtendo resultados e lucros recordes, como em 2021 e também 2022, até porque os juros estão altos. Além disso, o fato é que o governo Bolsonaro continua bastante amigável com os bancos.
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Uma prova dessa relação amigável é a medida provisória, já aprovada no Congresso e apenas à espera da sanção presidencial, que incluiu o público de baixa renda do Auxílio Brasil e do BPC (Benefício de Prestação Continuada) no grupo de elegíveis ao crédito consignado oferecido na rede bancária. Além de incluir esse novo contingente, a norma aprovada aumenta de 35% para até 45% o limite de comprometimento de renda com o empréstimo consignado, uma modalidade de financiamento com juros menores do que os usuais, mas ainda altos para a quase inexistência de risco de inadimplência. Só mesmo uma modalidade de empréstimo em que a prestação é descontada diretamente do que é depositado na conta bancária do beneficiário poderia aceitar comprometimento de renda tão elevado. Se isso não tem quase risco para o banco, é mais do que arriscado para quem contrata o financiamento.
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Fonte: UOL

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