Versão de Bolsonaro sobre “paranoia” causada por remédios não convence psiquiatras

A justificativa de Jair Bolsonaro para ter tentado romper a tornozeleira eletrônica — atribuída ao uso conjunto de sertralina e pregabalina — gerou forte estranhamento entre especialistas. Embora a combinação seja comum, segura e amplamente prescrita para idosos, psiquiatras apontam que episódios de delírio são raríssimos e, na maioria das vezes, não explicam comportamentos altamente organizados como o que o ex-presidente apresentou ao usar um ferro de solda para danificar o equipamento.
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Na audiência de custódia realizada no domingo (23), em Brasília, Bolsonaro afirmou ter vivido uma “certa paranoia” causada pelos remédios e que só “caiu na razão” por volta da meia-noite. Essa versão, no entanto, contrasta com o que descrevem profissionais da área: delírios associados à combinação dos medicamentos costumam envolver confusão mental, desorientação e prejuízo de consciência — o oposto da ação metódica e premeditada vista no vídeo divulgado.
A sertralina, antidepressivo muito usado para quadros de ansiedade, depressão e pânico, e a pregabalina, indicada para dor crônica e efeitos ansiolíticos, são prescrições comuns entre idosos. Segundo o psiquiatra Ricardo Castilho, é possível que a interação provoque hiponatremia — queda de sódio no sangue — capaz de causar confusão mental. Mesmo assim, antes de culpar os remédios, seria necessário descartar causas bem mais frequentes nessa faixa etária, como infecções, desidratação ou mudanças repentinas de dose.
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Para que o quadro alegado por Bolsonaro se sustentasse, Castilho reforça que seria essencial saber se houve superdosagem, suspensão abrupta ou uso inadequado — informações que não foram apresentadas. Sem isso, a hipótese do “delírio medicamentoso” fica ainda mais improvável.
O psiquiatra Rodrigo Fonseca Martins Leite, do Instituto de Psiquiatria da USP, foi taxativo: a combinação é segura e raramente gera alucinações como as descritas por Bolsonaro. Para ele, a ação de tentar romper a tornozeleira demonstra capacidade cognitiva incompatível com episódios desse tipo. Segundo o especialista, é “muito pouco provável” que a interação medicamentosa seja a responsável pelo comportamento do ex-presidente.
Diante das avaliações técnicas, a tese apresentada por Bolsonaro reforça o padrão conhecido de tentar se eximir de responsabilidade — mesmo quando confrontado por fatos, vídeos e decisões judiciais que o colocam cada vez mais perto da responsabilização definitiva.
Com informações do DCM
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Fonte: Plantão Brasil

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