Política

PSB quer evitar confronto com Lula em Pernambuco

Desde que começou a se desgarrar do PT, na campanha municipal de 2012, Eduardo Campos sempre fez questão de manter o discurso de fidelidade ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo com sua candidatura ao Planalto ganhando corpo, o governador garantia a aliados que tiraria o bloco da rua caso o ex-presidente decidisse concorrer.

De acordo com um de seus interlocutores, durante um encontro com Lula, em setembro do ano passado, em São Paulo, Campos teria dito ao ex-presidente: Estarei com o senhor, caso decida voltar. Mas com essa senhora [Dilma Rousseff], não dá mais.

Algumas semanas depois, porém, o governador de Pernambuco foi surpreendido com a chegada de Marina Silva ao PSB. Ciente da boa relação entre Campos e Lula, ela condicionou a aliança à irreversibilidade da candidatura presidencial do PSB. Campos topou.

Por isso, mesmo com o crescimento recente dos rumores sobre um eventual Volta, Lula, o governador de Pernambuco já não tem mais margem para voltar atrás, mesmo se quisesse.

Não foram poucas as juras de amor trocadas nos últimos dez anos entre Lula e Campos. Aparentemente inabalável, a simbiose tremeu quando o ex-presidente, falando a empresários, surpreendeu Campos ao compará-lo - mesmo que indiretamente - ao ex-presidente Fernando Collor.

A declaração causou estranheza ao governador, cujo plano de voo rumo ao Planalto não previa um embate direto contra Lula. Ainda assim, Campos não deixou o ex-presidente sem resposta. Toda vez que o país pede mudanças, alguns políticos tentam colocar o medo no coração do povo, rebateu.

Dois dias depois, no entanto, Campos contemporizou. Negou que Lula o tenha comparado a Collor. Mas já era tarde. O mantra de que a esperança vai vencer o medo caiu no gosto dos aliados de Campos e ecoa forte nos corredores do poder em Pernambuco.

Mas, se o porrete do governador canta cada vez mais alto quando o assunto é Dilma, o ex-presidente ainda é um tabu no PSB. Pernambucano, Lula ainda goza de popularidade suficiente para atrapalhar a manutenção da hegemonia do PSB no Estado, questão de honra - e sobrevivência política - para Campos.

Apesar dos rumores recentes, o pessebista não acredita em uma batalha contra Lula. Sua leitura é a de que a comparação com Collor foi, no máximo, jogo de cena, e que o ex-presidente não planeja comprar briga em Pernambuco. Além da relação pessoal entre os dois, que seguem amigos e têm se falado por telefone, Campos considera que o pragmatismo de Lula vai pesar.

No seu entendimento, o ex-presidente tem outras prioridades, como eleger os ex-ministros Alexandre Padilha e Gleisi Hoffmann para os governos de São Paulo e do Paraná, respectivamente, além de manter a hegemonia petista na Bahia.

Neste cenário, a avaliação é que não valeria a pena para Lula dedicar-se à sucessão em Pernambuco. Entre os principais interlocutores de Campos, as últimas declarações do ex-presidente foram vistas como um deslize. É pior pra ele [Lula] fazer esse tipo de declaração, pois apenas reforça a percepção, dele próprio, de que nós representamos o novo que a população procura, disse um dos coordenadores da campanha presidencial do PSB.

Outra pessoa que despacha diariamente com Campos foi mais contundente. Foi só uma derrapagem na fala dele [Lula]. Primeiro, porque ele próprio perdeu para o Collor e, segundo, porque o Collor é, agora, aliado dele, disse a fonte.

Independentemente das avaliações internas, a postura que será adotada por Lula em relação a Campos segue envolta a uma aura de mistério. Em setembro do ano passado, após a conversa com Campos, o ex-presidente ainda insistia na aliança.

É muito importante, do ponto de vista simbólico, a manutenção da aliança PT e PSB. Se não der para estar junto, precisamos estabelecer como regra fazer uma campanha civilizada para estarmos juntos no segundo turno. Ele [Campos] já me disse mais de uma vez que não vai tomar nenhuma decisão sem conversar comigo, disse Lula à época.

Poucas semanas depois, já com a filiação de Marina, o petista mudou o tom. Quero dizer aos meus companheiros de Pernambuco que me aguardem que logo eu estarei lá, prometeu Lula, durante visita ao Congresso.

A atuação de Campos na Câmara durante a crise do mensalão foi decisiva para o aprofundamento da amizade com Lula, que era amigo do governador Miguel Arraes (1916-2005). Eleito governador de Pernambuco, Campos foi tratado com mesa farta pelo ex-presidente, que chegou a chamá-lo de professor.

No auge da lua de mel, Campos figurou entre os principais conselheiros do ex-presidente. O governador ajudou, por exemplo, a dissuadir Lula da ideia do terceiro mandato, pela qual o ex-presidente teria ficado balançado. Em 2012, numa conversa em um hotel em Brasília, Campos ouviu de Lula a proposta, ainda incipiente, para ser candidato a vice de Dilma em 2014 e a presidente em 2018.

Apesar de ter acreditado nas boas intenções da oferta, o pernambucano não botou fé na viabilidade do plano. Recentemente, porém, ele voltou ao tema, ao dizer que até poderia ter esperado 2018, mas que o país não pode mais esperar.

Se a Lula e Campos não interessa, ao menos por enquanto, uma guerra aberta, o PT aposta suas fichas no racha. Na esfera nacional, a estratégia é colar em Campos a pecha de traidor. Em Pernambuco, onde o PT apoia para o governo o senador Armando Monteiro Neto (PTB), o plano é mostrar que Campos e Lula agora são inimigos.

A expectativa dos dirigentes petistas é que Lula e Dilma visitem Pernambuco durante a campanha. Já os aliados de Campos acreditam que somente a presidente visitará o Estado. Segundo um interlocutor do governador, Campos costuma brincar com Lula ao telefone, ao identificar-se como seu próximo presidente.

Fonte: Valor Econômico

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