Política · Justiça

Veja celebra seu herói: o justiceiro Barbosa

Capa da publicação mostra um Joaquim Barbosa vislumbrando eventual futuro político e pede que seu exemplo não seja esquecido; internamente, revista volta a bater na tecla de que o Brasil precisa de exemplos; no entanto, ele deixa o Supremo Tribunal Federal depois de ter violado uma jurisprudência consagrada nos tribunais superiores e criado insegurança jurídica, segundo palavras do próprio procurador-geral da República; curiosamente, a mesma edição de Veja traz diversos ataques ao senador Fernando Collor (PTB-AL), o último exemplo que Veja lançou para a presidência da República; a diferença é que, felizmente, Barbosa – que sempre agiu como político, e jamais como magistrado – não pode se candidatar; Barbosa não deve ser esquecido, mas pelos erros e não por supostos acertos

Em 1989, a revista Veja lançou ao País um exemplo. Era o então governador de Alagoas, Fernando Collor, apresentado à sociedade como o caçador de marajás. Mais recentemente, a revista da família Civita repetiu a dose com Joaquim Barbosa, vendido ao público como o menino pobre que mudou o Brasil.

Nesta semana, o menino pobre anunciou sua saída do Supremo Tribunal Federal. Irá curtir a Copa do Mundo e a aposentadoria precoce em Miami, paraíso dos novos-ricos latino-americanos. Deixou a suprema corte porque estava completamente isolado nos meios jurídicos. Em sua sanha persecutória ao ex-ministro José Dirceu, criou uma jurisprudência nova sobre trabalho externo de condenados ao regime semiaberto e foi repreendido pela Ordem dos Advogados do Brasil e pela procuradoria-geral da República, que o acusou de criar insegurança jurídica.

Portanto, nos meios jurídicos, Barbosa foi um péssimo exemplo – talvez, um dos piores de pessoas que já ocuparam altos cargos na magistratura. Foi alguém que colocou os interesses do personagem Joaquim Barbosa, eventual candidato a algum cargo público no futuro, acima da lei.

No entanto, esse mesmo personagem volta a ser celebrado na revista Veja deste fim de semana. E agora, Joaquim?, questiona a revista, no título da capa, lembrando que o Brasil não pode deixar que seu exemplo seja esquecido. Internamente, a publicação dos Civita volta a lembrar que o Brasil precisa de exemplos.

Bom ou mau exemplo?

Como juiz, Barbosa, claramente, não teve uma conduta exemplar. Como cidadão, menos ainda. Revelou-se, no Supremo Tribunal Federal, um agressor em série, atacando praticamente todos os seus colegas em momentos distintos. Mas, à revista Veja, interessa criar a mitologia do herói justiceiro que, pela primeira vez, teve a coragem de punir poderosos.

Curiosamente, o exemplo do passado é hoje um dos grandes inimigos de Veja. Na mesma edição em que exalta Barbosa, a revista ataca o senador Fernando Collor (PTB-AL), que, há poucas semanas, obteve a confirmação, em última instância, de que a revista terá que indenizá-lo em mais de R$ 1 milhão.

Na coluna Radar, Collor é apontado como um sempre enrolado personagem, que teria dívidas de campanha não pagas. Numa reportagem interna, chamada No estilo do duela a quien duela, novo disparo de Veja. Ou seja: o exemplo de ontem virou o inimigo de hoje, a quem a revista foi condenada a indenizar.

O mito de Joaquim Barbosa, no entanto, é muito mais perigoso. Sem apreço pela democracia, a revista exalta um personagem que já demonstrou uma incrível capacidade para suprimir garantias constitucionais e pisotear direitos individuais.

Num ponto, no entanto, a revista tem razão. O exemplo de Barbosa não deve ser esquecido.

O mau exemplo.

Fonte: Brasil 247

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