Em referendo, Escócia decide manter união com Reino Unido
Participação popular de 84,5% foi recorde; país terá mais autonomia a partir de janeiro, garantiu o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron

Em um processo considerado histórico, os escoceses decidiram que por 55% favoráveis ao “não” contra 45% que disseram “sim” à independência, o país seguirá sendo parte do Reino Unido. A vantagem é maior do que a verificada nas últimas pesquisas de opinião. Para diversos líderes europeus, o resultado foi um alívio por aplacar outras demandas independentistas na região.
O resultado definitivo foi divulgado na manhã desta sexta-feira (19) após a apuração dos 32 distritos eleitorais. A rejeição à separação conseguiu um total de 2.001.926 votos frente a 1.617.989 dos favoráveis. A participação do eleitorado foi de 84,5%, o que representa um recorde histórico. Nenhuma eleição realizada no Reino Unido desde a introdução do sufrágio universal há mais de cem anos conseguiu porcentagem tão alta.
Em seu pronunciamento após o resultado, o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, garantiu que cumprirá em sua totalidade a promessa de entregar mais autonomia à Escócia. Ele assegurou que os partidos britânicos cumprirão com a transferência de mais poderes à Escócia em matéria fiscal e de estado de bem-estar social e confiou que em janeiro, já haverá a legislação correspondente.
Cameron considerou que, da mesma forma que a Escócia terá mais poderes, as outras três nações que formam o Reino Unido também deverão ter voz sobre suas competências.
O primeiro-ministro da Irlanda, Enda Kenny, assegurou que seu governo seguirá muito de perto as mudanças políticas na Escócia. A atenção agora se centra sobre as mudanças que seguramente ocorrerão depois do referendo, particularmente os relacionados com a devolução de poderes. Seguiremos muito de perto esse processo na Irlanda, disse.
Em um ato em Edimburgo, o primeiro-ministro do governo autônomo da Escócia, Alex Salmond, líder da campanha independentista, agradeceu pelos 1,6 milhões de votos a favor da independência e pediu aos três grandes partidos do Reino Unido – conservadores, trabalhistas e liberal-democratas – que cumpram suas promessas de conceder mais autonomia à região. Ele também pediu a todos na Escócia para fazer o mesmo e aceitar a vontade democrática do povo escocês.
Analistas consideram que Alex foi o grande vencedor do processo. Mesmo sem ter alcançado a vitória, o movimento independentista fez com que a sociedade escocesa, e principalmente os jovens desiludidos com a política, se envolvessem de novo e falassem com entusiasmo do país que queriam, com a possibilidade real de mudá-lo.
Para muitos escoceses, a independência não era exatamente uma expressão de nacionalismo, mas uma possibilidade de aplicar políticas distintas às de Londres.
Repercussão na Europa
Na Espanha, o presidente do governo, Mariano Rajoy, felicitou os escoceses pelo resultado do referendo e por ter protagonizado um escrupuloso respeito à legalidade que lhes levou a evitar as graves consequências que teria representado a independência.
Para Rajoy, os escoceses escolheram ontem entre a segregação e a integração, entre o isolamento e a abertura, entre a estabilidade e a incerteza, entre a segurança e o risco certo.
As declarações do espanhol são uma espécie de recado à Catalunha que também deseja realizar uma consulta para decidir sobre sua autonomia. O parlamento catalão deve aprovar hoje a convocação de uma consulta defensora da soberania na região. Madri considera a consulta inconstitucional.
Na mesma linha, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, afirmou que o resultado é bom e favorece uma Europa mais unida e forte.
Dou as boas-vindas à decisão do povo escocês de manter sua unidade com o Reino Unido, disse Barroso, que afirmou que este resultado é bom para a Europa unida, aberta e forte que a Comissão Europeia apoia.
Para o governo alemão, os escoceses votaram de forma significativa a favor de se manter no Reino Unido e contra a independência, afirmou o porta-voz Steffen Seibert.
Os alemães, no entanto, destacaram que “os contextos legais” para convocar uma consulta na Escócia e na Catalunha são totalmente diferentes, como já apontou a chanceler Angela Merkel em sua última visita à Espanha.
Catalunha
O presidente do Governo da Catalunha Artur Mas, afirmou hoje que o exemplo do plebiscito da Escócia é o único caminho que há para resolver conflitos, porque segundo sua opinião, votar une e não separa. Ele considerou que o processo defensor da soberania catalã continua porque, disse, se sente reforçado após a experiência da Escócia.
Hoje o Parlamento autônomo da Catalunha vota uma lei para convocar uma consulta defensora da soberania, que o executivo dessa região quer que seja realizado em 9 de novembro, e à qual o governo espanhol se opõe, por considerá-la inconstitucional.
Fonte: Rede Brasil Atual

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