Brasil

O PLANO DE KÁTIA ABREU

Ministra mais criticada pela esquerda na montagem do governo Dilma, Kátia Abreu tem um plano: incluir mais 700 mil produtores na classe média rural nos próximos quatro anos; para isso, ela pretende integrar todos os organismos de assistência técnica espalhados pelo País e criar também uma secretaria de mobilidade social, que se tornaria a mais importante do Ministério da Agricultura; aqui, não tem ideologia, o foco é colocar mais dinheiro no bolso dos produtores, afirma; Kátia pretende ainda estimular a agricultura urbana, para melhorar a imagem do agronegócio; não se espantem se os canteiros de hortaliças começarem a ser plantados no próprio Ministério

São 11h30 da manhã de uma quinta-feira e a ministra Kátia Abreu, da Agricultura, está tensa. Parece andar com os nervos à flor da pele. Uma hora e meia depois de uma conversa em que discorreu sobre vários temas, vem a explicação: era fome. A ministra que se ocupa do produto mais importante da pauta de exportações brasileira, o alimento, também aderiu à febre que tomou conta do poder em Brasília: a milagrosa dieta Ravenna.

Com casamento marcado para o Primeiro de Fevereiro, Kátia Abreu, que se tornou viúva aos 24 anos, e depois disso virou fazendeira, presidente de sindicato rural, de entidade patronal (a Confederação Nacional da Agricultura) e agora ministra, quer estar enxuta para o seu grande dia. São 800 calorias por dia, diz ela, ao voltar a sorrir, no momento em que é servida a sopa que antecede as dietas Ravenna. A ministra, no entanto, não pretende se tornar escrava da dieta. Depois que eu voltar ao peso ideal, quero engordar dois quilos nos fins de semana, e emagrecer nos dias de trabalho, afirma, prometendo combinar dias de dieta com dias de pé na jaca.

Bom que seja assim, afinal, o alimento é hoje o principal produto da pauta de exportações do Brasil, país que fechará a safra de 2014 com mais de 200 milhões de toneladas de grãos – um recorde histórico. Este ministério nem deveria se chamar da Agricultura, Pecuária e do Abastecimento, mas sim do Alimento, afirma.

Kátia sabe que, hoje, é a ministra mais criticada pela esquerda que apoia a presidente Dilma Rousseff e pelo PT. Mas tem um plano para conquistar os que a veem como adversária. Esse plano pode ser resumido em duas palavras: mobilidade social.

Dos 3,5 milhões de produtores rurais existentes no Brasil, apenas 700 mil integram a chamada classe média rural. A meta de Kátia Abreu é fazer com que, ao final de quatro anos, mais 700 mil cruzem a fronteira. Muitos não são nem produtores rurais, propriamente, mas sim moradores de zonas rurais, diz ela. O ponto central, na sua estratégia, é integrar todos os organismos de assistência técnica, como as Ematers de cada estado, sob um guarda-chuva federal. Só com conhecimento o pequeno produtor rural poderá dar o salto que lhe permita, por exemplo, ampliar a produtividade de suas vacas de leite, produzir queijos e assim por diante.

Secretaria de Mobilidade Social

Amiga pessoal da presidente Dilma Rousseff, que bancou sua indicação contra pressões de diversos setores do PT e também de movimentos sociais, como o MST, Kátia pretende ganhar a adesão presidencial para criar uma nova secretaria, que se ocuparia justamente do tema da mobilidade social, e passaria a ser a mais importante do Ministério. Com isso, políticas de assistência técnica, de seguro agrícola e de garantia de preços mínimos passariam a estar subordinadas a este objetivo maior.

Embora não afirme que este seja um projeto para quebrar resistências da esquerda ao seu nome, é evidente que a mobilidade social, se confirmada na prática, será uma bandeira progressista que Kátia Abreu terá para exibir para seus oponentes. Sabe por que me atacam? Porque eu faço a defesa da propriedade e do estado de direito, diz ela. Só por isso.

Foi justamente essa defesa da propriedade que fez com que ela tivesse seu primeiro atrito. Numa entrevista à Folha, Kátia Abreu afirmou que não existe mais latifúndio no Brasil, no que foi contestada pelo ministro do Desenvolvimento Agrário. A briga diz respeito aos índices de produtividade. Quando as terras são consideradas improdutivas – latifúndios, portanto – elas se tornam passíveis de desapropriação. Na visão de Kátia Abreu, isso não existe mais no Brasil.

Ela defende ainda que o País aproveite melhor áreas irrigáveis no Cerrado, para ampliar sua produção agrícola. São pelo menos 5 milhões de hectares que podem ser rapidamente aproveitados, sem nenhum desmatamento, diz ela.

A imagem do produtor rural

Outra bandeira da ministra será contribuir para a mudança da imagem do agronegócio e do produtor rural. Para isso, ela pretende lançar um plano para a agricultura urbana, que já existe em várias metrópoles do mundo, onde pequenos canteiros são aproveitados para a produção de hortaliças e legumes. O sonho de Kátia Abreu é fazer com que a agricultura se transforme em febre nacional. Foi por isso que fizemos uma campanha com o Pelé, quando eu estive na CNA, diz ela. Nós não somos vilões. Colocamos comida na mesa do brasileiro, dos cidadãos do mundo inteiro e carregamos a balança comercial.

Outra de suas prioridades será melhorar a imagem do produto nacional. Um tema que a preocupa, por exemplo, é a imagem da carne brasileira em restaurantes internacionais, especialmente da América Latina – um tema que foi levado a ela por donos de churrascarias brasileiras. Temos uma carne tão boa quanto a argentina e uruguaia e precisamos quebrar preconceitos, diz ela.

Ao ouvir empresários ligados ao agronegócio, ela pretende inaugurar um novo estilo no Ministério. Todos aqui serão ouvidos. E eu me preocupo muito com o empresário que é quem sente, na pele, as dificuldades. Por meio do diálogo, ela pretende criar o plano Agro + 20, com projeções para o agronegócio brasileiro nos próximos vinte anos.

Ela também afirma que trabalhará incansavelmente para quebrar as resistências do meio rural à presidente Dilma. Segundo ela, existe uma AgroDilma que poucos conhecem. Ninguém fez tanto pelo setor quanto ela. Só a abertura dos portos permitiu que hoje estejam sendo construídos 78 novos terminais no Brasil. O seguro rural foi de R$ 280 milhões para R$ 700 milhões, diz ela. É hora de perder o preconceito e deixar a ideologia de lado. Com esse discurso, Kátia pretende também conquistar seus adversários.

Fonte: Brasil 247

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