Economia

ECONOMISTA TUCANO PROPÕE REVER CONTEÚDO NACIONAL

247 - O economista José Roberto Mendonça de Barros, que foi secretário de política econômica do governo FHC, defende a revisão da política de conteúdo nacional na Petrobras e o cancelamento do socorro à empresa Sete Brasil, que, contratada pela Petrobras, subcontrata estaleiros no Brasil. Leia, abaixo, seu ponto de vista:

Para reconstruir a Petrobrás - JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS

A Petrobrás, como se sabe, vive uma crise extraordinariamente profunda, que vai muito além de um mal comportamento de alguns de seus funcionários em conluio com um cartel de fornecedores.

A destruição de valor na empresa é uma das maiores registradas na história das corporações, como apontou A. Damodaran, da Stern School of Business da New York University, numa nota do dia 10 deste mês. De fato, o auge do valor de mercado da companhia foi em 2010, quando, após uma bem-sucedida capitalização de US$ 73 bilhões, a Petro chegou a valer US$ 244 bilhões. De lá até este mês, a empresa conseguiu perder um pouco mais de US$ 200 bilhões. Embora parte desta perda se deva à queda dos preços de petróleo, especialmente após setembro de 2014, a companhia já havia destruído, naquela data, mais de US$ 160 bilhões (minha tradução). Um espanto!

A crise da Petrobrás exige uma resposta simultânea e competente em três áreas bem diferentes:

a) Retomar a normalidade financeira, o que só acontecerá depois da elaboração de um balanço auditado, precedido também por negociações com os reguladores brasileiros e americanos. Um balanço dessa natureza só ocorrerá a partir da estimativa do valor de correção nos ativos (teste de impairment). Essa correção não destacará, por impossibilidade absoluta, o que se deve à corrupção ou a causas econômicas, embora se saiba que a primeira é muito importante neste caso.

A partir daí, será possível reequacionar o fluxo de caixa e de pagamentos, severamente afetados pela paralisia quase total da companhia. Com isso, o relacionamento com fornecedores poderá se normalizar e algumas quebras de empresas poderão ser evitadas.

Entretanto, é preciso ter presente que, mesmo no melhor cenário, a empresa será menor financeiramente e que muitos fornecedores remanescerão com grandes dificuldades de crédito, encolhendo pela venda de ativos e enfrentando ações judiciais. Os fornecedores industriais também deverão perder muito, uma vez que vários deles já estão em recuperação judicial. Muitos fornecedores pequenos irão sair do negócio.

A destruição de valor na Petrobrás, como não podia deixar de ser, está reverberando fortemente na cadeia de suprimentos, grandes e pequenos, industriais ou produtores de serviços. Neste segmento, o risco e as incertezas se elevaram muito e, em consequência, o aperto de crédito vai ser grande. Não me parece que nas condições atuais os bancos oficiais poderão aliviar muito este quadro.

Ainda com relação à área financeira, e mostrando quão difícil é a fase pela qual passa a companhia, a forte desvalorização do real destes dias volta a apertar o fluxo de caixa da Petrobrás. Isto porque a grande queda no preço de importação da gasolina não foi repassada ao consumidor. Como calculou Adriano Pires, a empresa passou a ter uma margem positiva da ordem de 60%, ou algo como R$ 4 bilhões por mês. A recente desvalorização do real, que encarece a importação, reduziu a margem a um terço daquela do início do ano.

b) É necessário, simultaneamente, rever o modelo de negócios e refazer o plano de investimentos de 2015/2018. Este último, claramente, tem de ser reduzido no seu escopo.

Aliás, como não existe vácuo, as coisas vão andando. Por exemplo, cansada de esperar por negociações, a Braskem anunciou que desistiu do investimento no Comperj, o qual, contrariando o próprio nome, deixa de ser um polo petroquímico. Isto é bom para a companhia e para o setor, ou não?

Além disso, é evidente que a cláusula de conteúdo nacional tem de ser aliviada, por ter se tornado algo impraticável como está hoje. Basta pensar no seguinte: um navio sonda (FPSO), antes da queda do petróleo, tinha um preço internacional de US$ 900 milhões, aproximadamente. Com os custos locais mais elevados, as sondas da Petrobrás contratadas, por exemplo, com a Sete Brasil, tinham custos da ordem de US$ 1,1-1,2 bilhão. Hoje, com a queda do mercado, é possível adquirir o mesmo equipamento por US$ 600 milhões. Uma empresa debilitada e endividada não tem como bancar tal diferença.

Finalmente, será necessário algum mecanismo de alívio na atual Lei de Partilha, que obriga a Petrobrás a ser operadora em todos os campos do pré-sal, com a participação de pelo menos 30%. Não há mais dinheiro possível para toda essa ambição. A ex-presidente Graça Foster já havia começado a trabalhar nessa direção.

c) A questão da governança. Não basta criar o cargo de Diretor de Governança, é preciso mudar o modelo corporativo, as regras detalhadas, a cultura da organização e dar condições para que as determinações sejam de fato seguidas (compliance). No fundo, trata-se de evitar que um ou mais partidos políticos dominem a organização e imponham seus interesses acima dos interesses da companhia e de seus acionistas.

A reconstrução da Petrobrás vai ser uma tarefa longa e árdua. Por isso, vi com grande apreensão a notícia de que a Moodys vai reavaliar o rating da Petrobrás até o final do mês.

As três áreas acima mencionadas têm de ser enfrentadas simultaneamente. O Brasil terá de decidir se quer uma empresa estatal nos moldes da Statoil norueguesa ou da PDVSA venezuelana ou da companhia mexicana. Essa é a tarefa que deverá enfrentar o novo presidente da Petrobrás.

Argentina. A compreensão do Brasil com a Argentina chegou a seu ponto máximo. A sra. Cristina Kirchner foi até a China e assinou um grande acordo bilateral, sem dar a menor atenção ao Brasil. Dá a impressão de que soubemos do evento pelos jornais. Vários analistas daquele país calculam que as reservas líquidas do Banco Central são hoje da ordem de US$ 16 bilhões, totalmente insuficientes para as necessidades mínimas da Argentina. Daí porque a tentativa bastante aflita de levantar financiamento chinês. O Mercosul, que já estava profundamente enfraquecido, vive um momento melancólico.

Fonte: Brasil 247

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