Política · Justiça

O xadrez dos impasses no jogo do impeachment

A segunda-feira foi de preparativos, com os dois lados acumulando forças.

O cenário central que traçamos contempla os seguintes movimentos:

Do governo - Lula avançando na remontagem do pacto político, juntando a antiga base de apoio, tendo o presidente do Senado Renan Calheiros como fiel da balança.

Da oposição - Reorganização do pacto PMDB-PSDB em torno do vice-presidente Michel Temer.

Batalha de Stalingrado - daqui até a votação do impeachment pela Câmara, acirramento das disputas

Conforme previmos, os lances principais de curto prazo foram jogados:

Impedir a atuação de Lula através de ações judiciais junto ao Supremo Tribunal Federal (STF). A divulgação do grampo ilegal fortaleceu essa hipótese.

Acelerar as ações contra Renan Calheiros.

Do lado de Lula, houve a manifestação dos juristas subscrevendo um Habeas corpus (HC) dirigido ao STF. E Lula se lançando à luta sem necessariamente dispor do cargo de Ministro-Chefe da Casa Civil.

Ontem ocorreram os seguintes episódios:
Temer

O Senador José Serra tentou se valer da parceria com jornais para se apresentar como conselheiro, avalista e coordenador de um futuro governo Michel Temer.

Foi uma entrevista que trouxe apenas uma informação importante: Serra não é jogador central, no máximo é um estrategista dos porões Quem manda nos bastidores jamais se apresenta no palco. Foi imediatamente rechaçado por Temer, consolidando a convicção de que, na eventualidade de um acordo PSDB-PMDB, Serra irá para um cargo secundário.
STF

O Supremo Tribunal Federal mais uma vez tergiversou em relação ao tema Lula. Sorteado relator da medida contra a decisão do seu colega Gilmar Mendes, o Ministro Edson Fachin refugou e declarou-se impedido por ser padrinho de batismo do filho de um dos signatários do documento. Novo sorteio, a bola caiu com a Ministra Rosa Weber. Mesmo tendo sido assessorada pelo juiz Sérgio Moro, no mensalão, Weber não se declarou suspeita.

Agora, está sob fogo cruzado.

Do lado da oposição, o uso óbvio das conversas gravadas e divulgadas irregularmente por Sérgio Moro, especialmente o pequeno trecho em que um dos políticos sugere a outro que Dilma converse com Rosa.

Do lado dos pró-Lula, a disseminação de ataques mencionando o filho que trabalha na Globo, o parentesco com a esposa de Aécio e a assessoria de Moro no “mensalão”. São tão desastrados que parecem até planejados pelos golpistas. Rosa Weber é considerada unanimemente uma Ministra séria. Suas vulnerabilidades não se prendem ao caráter, mas à fragilidade emocional e jurídica nos grandes embates jurídicos, especialmente com implicações políticas como a atual. Os ataques apenas atiçarão mais as idiossincrasias no STF.

Não se entende que uma estilingada de cá legítima bombardeio e fogo de artilharia de lá.

Ainda há que se aguardar a posição do STF. Até agora, não há nenhum sinal de que entrará mais firmemente na contenção de abusos.
Pressões sobre parlamentares

Grupos como o “Vem para a rua” estão trabalhando a rede com o máximo de profissionalismo. Montaram sites com a ficha de cada deputado, sua posição em relação ao impeachment e dados pessoais, sobre como e onde constrangê-los, além do uso abundante de robôs, especialmente no Twitter, e de sites de disseminação de notícias falsas. E, óbvio, com a retaguarda do maior dos perfis das redes sociais: os veículos de comunicação.

Do lado dos lulistas, há também o uso de robôs, de sites com notícias falsas. Mas com eficácia reduzida.

Quando menciono  lulistas, não se pense em uma ação estruturada com um comando central, mas em ações dispersas por parte de simpatizantes.
Momentos decisivos

Nos cenários anteriores, alertamos para o óbvio: os próximos dias serão prenhes de grandes jogadas midiáticas e policiais. Podem aguardar sentados novas bombas saindo dos porões diretamente para o Jornal Nacional.

Por outro lado, aumenta a reação ao golpe. Após as grandes manifestações do último dia 18, haverá provavelmente manifestações maiores no dia 31. Além disso, ampliou o posicionamento de artistas, intelectuais e personalidades em geral contra o clima de fascismo e contra o golpe.

Há saídas convencionais para a crise: a derrubada do impeachment e a recomposição do governo Dilma; ou o impeachment e a entrada de Michel Temer.

Comece a trabalhar com uma terceira hipótese, ensaiada por alguns setores anti-Lula mais preocupados com a institucionalidade a partir das seguintes premissas:

O alvo sempre foi Lula. É Lula que une as esquerdas e pode ameaçar as eleições de 2018.

A queda de Dilma escâncara o golpismo perante o mundo jurídico e a opinião pública mundial. Não haverá como conferir legitimidade ao governo que assumir.

Além disso, ampliará de forma incontrolável o racha, o ódio e a violência.

A saída – segundo esse raciocínio – seria preservar o governo Dilma à custa do sacrifício político de Lula.

Antes, terão que combinar com os russos. Mas tenho convicção de que os próximos passos do jogo serão nessa direção. É por aí que deverão ser estruturadas as próximas ações anti-golpe.

Fonte: GGN

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