Imprensa alemã vê "derrota" e "declaração de falência" de um país

A aprovação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff pelo Senado é um dos principais destaques da imprensa europeia nesta quinta-feira (12/05).
Com o título Um país perde, o site Spiegel Online afirma que o drama em torno da presidente é um vexame para um país afundado na crise. Para o correspondente Jens Glüsing, o grande e orgulhoso Brasil terá que se resignar a, no futuro, ser citado por historiadores ao lado de Honduras e Paraguai – e não só por causa de apresentações bizarras de seus representantes populares. Também em Honduras e Paraguai, presidentes eleitos foram afastados de forma questionável do cargo.
Para ele, o espetáculo indigno apresentado pelos políticos brasileiros prejudicou de forma duradoura as instituições e a imagem do país. O jornalista afirma que Dilma não está sendo acusada de nenhum crime, a não ser que se considere a maquiagem orçamentária uma infração. Mas aí todos os seus antecessores e também muitos governadores teriam de ser expulsos do cargo.
Na análise do semanário Die Zeit, o afastamento de Dilma é a declaração de falência do Brasil. O jornalista Michael Stürzenhofecker afirma que o país queria se apresentar como uma nação moderna com os Jogos Olímpicos, mas o processo de afastamento de Dilma é um recuo nos velhos tempos e também os 31º Jogos não serão realizados numa democracia sem máculas.
O processo contra Rousseff não é jurídico, mas político, afirma o jornalista, que lembra a baixa popularidade de Dilma e a sua falta de apoio político. O que mais move as pessoas, porém, é a casta política corrupta. O paradoxal nisso é que Rousseff precisa sair porque atacou o problema. Os investigadores da Lava Jato acusaram muitos de seus partidários. Também ela foi investigada, mas nada foi provado.
Por fim, a análise lembra que há muitos acusados de corrupção entre aqueles que afastaram a presidente e elogia Dilma por ter deixado os investigadores agirem com relativa liberdade, sem interferir. Isso é incomum para uma líder política que enfrentou uma pressão desse tamanho. Para o jornalista, o processo todo é uma derrota para o Brasil, e a recém-adquirida confiança nas instituições e na democracia está abalada. Com o impeachment, o país está a caminho de se tornar a maior república de bananas do mundo.
No Süddeutsche Zeitung, a análise Estes homens derrubaram a presidente apresenta uma relação de todos os envolvidos no processo. Na opinião de muitos juristas, as acusações são tênues, muitos chefes de Estado antes de Rousseff agiram de forma semelhante e não foram afastados do cargo. A queda de presidente é muito mais o resultado de intrigas políticas, costuradas pelos adversários de Rousseff.
Em seguida, o jornalista Benedikt Peters apresenta o vice-presidente Michel Temer como o grande vencedor do processo e lembra que personagens-chave do impeachment, como o deputado Eduardo Cunha, são, ao contrário de Rousseff, acusados de corrupção.
O Frankfurter Allgemeine Zeitung analisa o processo como uma marcante guinada à direita e afirma que o sucessor Michel Temer precisa carregar um peso enorme no chão de uma legitimidade frágil. O jornalista Matthias Rüb afirma que o país necessita urgentemente de estabilidade política e lembra os problemas da economia brasileira.
Para ele, a herança do PT não é grandiosa depois de quase 13 anos de domínio, e o partido deve assumir a responsabilidade pelo atual desastre. Ainda assim, e apesar da grande recessão, o maior país da América Latina está longe de se transformar num Estado mafioso e falido como a Venezuela, e o combate à pobreza é uma conquista permanente.
Para o jornalista, o Brasil tem divisas suficientes, e os setores primário e secundário são estáveis. Uma mudança rápida para melhor é possível. Mas, para isso, é necessário estabilidade política e disposição para reformas da parte do presidente interino, Michel Temer. Que Rousseff e os grandes do PT continuem falando de golpe e anunciem oposição contínua também fora das instituições políticas é algo irresponsável, comenta.
No Reino Unido, o jornal The Guardian diz que a primeira mulher a presidir o Brasil foi afastada pelo voto de senadores que colocaram problemas econômicos, a paralisia política e irregularidades fiscais à frente do voto de 54 milhões de brasileiros que elegeram a representante do PT em 2014.
O impeachment é mais político do que jurídico, escreve a publicação britânica. Os senadores, diz, tiveram uma postura mais sóbria do que os deputados, que protagonizaram cenas triunfantemente feias.
Em artigo intitulado Uma guerreira até o fim: Dilma Rousseff – pecadora e santa na luta do impeachment, o correspondente Jonathan Watts diz que apesar de ser menos corrompida que seus acusadores, a teimosia e a natureza fechada da presidente a deixaram sem os instrumentos necessários para enfrentar a crise.
Traída por seu companheiro de chapa, condenada por um Congresso contaminado por corrupção e insultada pelo abuso que sofreu como prisioneira da ditadura militar, a líder do Partido dos Trabalhadores sofreu um grande golpe nesta quinta-feira, quando o Senado votou pelo seu impeachment, escreve.
Segundo o The Guardian, a presidente protestou contra a misoginia e prometeu lutar até o amargo fim. Mas a batalha dela se assemelha cada vez mais a de um animal ferido cercado por predadores se preparando para matar, diz o texto.
A publicação argumenta que a crise política e econômica não é culpa apenas de Rousseff, mas também de um Congresso fragmentado, que não permitiu a construção de uma coalizão.
O El País, que nesta quarta-feira publicou um editorial chamando o processo de impeachment de irregular, destaca que os senadores falaram sobre as manobras fiscais, mas se concentraram no catastrófico curso da economia para justificar os votos.
A sessão plenária, que teve uma extensão maratoniana, transcorreu sem os excessos chocantes e ridículos vistos durante a votação do processo na Câmara dos Deputados, em abril.
O francês Le Monde diz que Temer e sua comitiva estavam prontos para o sacrifício. O homem, puro produto do sistema político brasileiro, conhecedor das intrigas parlamentares, descrito pela comitiva da presidente brasileira como um conspirador, traidor e um ejaculador precoce, que pensa há meses no trono, está prestes a chegar ao degrau mais alto do poder, afirma a publicação.
Desconhecido do público, o filho de imigrantes libaneses encarna a esperança do fim da crise, diz o Le Monde, que acrescenta que Temer herda uma situação dramática, mas tem a confiança do mercado financeiro. O artigo questiona se presidente interino será capaz de conciliar uma sociedade dividida pelo processo de impeachment, já que ele é citado na Operação Lava Jato.
Para o Corriere della Sera, o Senado disse sim ao impeachment, mas Dilma ainda tem esperança de retorno. Segundo o jornal italiano, o caminho do presidente interino não será fácil. Temer terá que enfrentar a resistência de parlamentares do PT que anunciaram a obstrução sistemática de todas as propostas feitas por ele.
O Brasil vive o segundo ano consecutivo de recessão severa e tudo está num impasse há meses devido à crise política, diz a publicação. Temer vai pedir que o Congresso apoie uma forte manobra para colocar as finanças públicas em ordem e nomear novos ministros. É preciso resultados rápidos, que justifiquem uma inversão que tem levantado muitas dúvidas, mesmo fora do país.
Fonte: DW.COM

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