1014 visitas - Fonte: Tijolaço
A noite de 31 de março de 1964 foi comprida na redação de Última Hora na Rua Sotero dos Reis, Praça da Bandeira, Rio de Janeiro.
Sabíamos, desde a tarde, que soldados do Exército e policiais militares de Minas Gerais vinham de Juiz de Fora em um levante armado, sob o comando do General Olímpio Mourão Filho, antigo militante integralista que, mais tarde, diria de si próprio: “Sou uma vaca fardada”.
Mesmo com alguns reforços que recebeu, não era grande coisa, segundo oficiais da Aeronáutica que sobrevoaram a coluna . A adesão de tropas do II Exército, comandadas por um traidor, General Amauri Kruel (que documentadamente recebeu uma mala de dinheiro como propina do Presidente da Federação das Indústrias de São Paulo), seria fator decisivo para a efetivação do golpe de Estado.
A única coisa que conhecja desse Olímpio Mourão era um artigo que assinou, como tenente-coronel de Artilharia, em um número da revista “Cultura & Política”, do DIP, editado para celebrar a “unidade nacional” quando da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Na mesma edição, saiu um texto de Graciliano Ramos, escrito por imposição da disciplina interna do Partido Comunista; ele deixa claro isso em “Memórias do Cárcere”.
Despachamos para Resende, onde se esperava o confronto dos golpistas com unidades do I Exército, um jipe sem a marca do jornal levando o repórter Pinheiro Júnior. Ele mais tarde contaria outro lance que levou à confraternização entre legalistas e rebelados: estes, que controlavam a Academia Militar de Agulhas Negras (oficiais dissidentes costumam ser lotados na Diretoria de Ensino do Exército), armaram os cadetes e os puseram na linha de frente.
Como poderiam os legalistas atirar em “nossos meninos”?
Alta madrugada, começando a clarear, saí do jornal com notícias e proclamações parecidas com as que leio, hoje, na mídia alternativa: greve geral decretada, confiança na “jovem democracia brasileira”, no “esquema militar do presidente”, nas Ligas Camponesas de Francisco Julião, nos ideais do Concílio Vaticano II, no “não passarão”.
Quando acordei, depois do meio-dia, a Rádio Nacional mantinha o mesmo tom, mas reparei que, afora gravações, quem falava eram empregados da própria emissora. Lembro-me da voz do médico e radialista Paulo Roberto, criador de um programa muito inteligente, “Nada além de dois minutos”.
Pelo andar da carruagem, percebi que os que não passariam haviam passado. Isso se confirmou quando uma voz se anunciou no alto-falante: “Sou um major do Exército…”
Entrei no automóvel – um Gordini -, dirigi até o jornal, ajudei a transportar alguns arquivos para o carro de fuga, cruzei, na passagem sob a linha férrea, com a malta de vagabundos armados que iria empastelar a Última Hora (vi a cara do animador de auditório César de Alencar), percorri lentamente os bairros em festa da Zona Sul e os subúrbios calados e vazios dos bairros de trabalhadores em que nasci e fui criado – longe da praia, muito mais perto da verdade.
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