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A persistência de fortes mobilizações contra o golpe parlamentar colocou o governo de Michel Temer diante do seguinte dilema: ou desiste das reformas que rompem o pacto de 1988 e perde de vez o apoio de setores importantes do PSDB e da elite econômica do país, ou entrega o que prometeu a seus apoiadores, correndo o risco de jogar gasolina no amplo movimento por eleições diretas.
No jogo político travado em Brasília e na grande mídia, as pressões cada vez mais ferozes pela aprovação das reformas que reduziriam estruturalmente o papel do Estado na economia e na provisão de uma ;ainda frágil– rede de proteção social deixam claro que o bloco formado para derrubar a presidente Dilma Rousseff é tudo, menos coeso.
Só não está evidente quem é o real boi de piranha nesta história. Por um lado, o PMDB ;um partido que sempre se alimentou do tamanho do Estado em seu fisiologismo; utilizou-se de um discurso neoliberal de ocasião para conquistar o apoio dos que faziam oposição ao governo Dilma Rousseff.
As gravações de Sergio Machado já haviam deixado claro para aqueles que quiseram ouvir que o principal objetivo do golpe parlamentar nunca foi o de ajustar as contas públicas no curto ou no longo prazo, e sim o de estancar a sangria causada pela Operação Lava Jato.
Por outro lado, o PSDB e seus simpatizantes, cientes de que jamais ganhariam uma eleição com a agenda de retrocessos que defendem hoje, tentam conseguir do PMDB que faça o trabalho sujo para o que ;calculam; seria seu governo a partir de 2018.
Caso não sejam atendidos, podem optar por desembarcar de um governo ilegítimo e tentar a sorte no mais amplo campo político do pós-golpe ;o barco do ;Fora, Temer;. Setores da grande mídia parecem já estar arrumando as malas para a nova viagem. Resta saber se serão aceitos a bordo.
Diante de pressões crescentes pela aprovação da reforma da Previdência e da PEC ;do teto; –que chegaram até mesmo às atas do Banco Central do Brasil; o governo Temer ainda se esforça para convencer as viúvas de Margaret Thatcher de suas boas intenções.
Reportagem do jornal ;Valor Econômico; da última terça-feira (13) sugere que o ministro-chefe da Casa Civil vem aprendendo teoria do Estado com os discípulos da ex-primeira-ministra britânica. ;Padilha defendeu que não existe dinheiro público, já que todos os recursos arrecadados pelo governo vêm do setor privado, por meio de pagamento de impostos;, afirma.
Nos bastidores do poder, no entanto, o debate econômico parece se dar ainda entre os que insistem em afirmar que não há dinheiro para o que pede a sociedade e os que acham que o dinheiro não tem dono, podendo ;ad eternum; ser apropriado pelas velhas oligarquias. Oligarquias que, proporcionalmente à sua renda, são os que menos contribuem para o Orçamento.
Desde o início da crise ;e de seu nítido agravamento pelo corte brutal de investimentos e do conjunto de despesas efetivas reais do governo em 2015;, o caminho da redução do deficit fiscal pela via da eliminação de desonerações fiscais, da cobrança de impostos progressivos e da recuperação do crescimento da renda e do emprego são cartas das quais nossos plutocratas não querem nem ouvir falar. Quem parte e reparte fica com a maior parte.
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