A batalha contra a tirania dos juros: por que o mercado teme a proposta de Lara Resende
O historiador Fernando Horta rebate críticas à proposta de redução de juros de André Lara Resende, expondo como o peso dos encargos financeiros sobre a dívida pública brasileira é usado para mascarar interesses de classe sob um falso tecnicismo.

Foto: Crédito: Brasil 247 · Original e licença
O historiador Fernando Horta posicionou-se publicamente em defesa da proposta do economista André Lara Resende, que busca reduzir a taxa básica de juros no Brasil. Para Horta, as vozes do mercado financeiro que tentam desqualificar a medida comparando-a à política econômica da Turquia sob Recep Tayyip Erdogan não estão realizando uma análise técnica, mas sim atuando na defesa do que ele denomina como a tirania dos juros.
Segundo o historiador, a resistência à queda da Selic está diretamente ligada à proteção dos ganhos obtidos com a remuneração da dívida pública. Ele aponta que, nos doze meses encerrados em setembro de 2026, os juros nominais consumiram cerca de R$ 1,2 trilhão, o que equivale a quase 9% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Horta argumenta que o debate público é frequentemente manipulado para focar no déficit primário, que é de apenas 0,52% do PIB, enquanto o déficit nominal, que incorpora os encargos financeiros, atinge 9,51%. Para o analista, ignorar essa diferença não é um equívoco de interpretação, mas uma desonestidade intelectual.
Ao rebater a analogia com a Turquia, Horta ressaltou que o Brasil de 2026 possui indicadores muito mais sólidos. Enquanto o país de Erdogan, em 2021, enfrentava inflação elevada, reservas internacionais negativas e uma economia altamente dolarizada, o Brasil conta hoje com reservas de US$ 372 bilhões e uma inflação em 4,58%. O historiador sustenta que, em uma comparação direta de variáveis econômicas, o Brasil apresenta desempenho superior em quase todos os quesitos, sendo a dívida bruta o único ponto de desvantagem, o que ele atribui justamente ao custo elevado dos juros praticados pelo Banco Central.
Horta também destacou que a proposta de Lara Resende não se trata de uma medida heterodoxa ou de impressão de dinheiro, mas de uma estratégia baseada na teoria fiscal do nível de preços. O plano prevê uma redução gradual da taxa, com o uso das reservas internacionais para mitigar eventuais pressões sobre o câmbio. O historiador relembrou que, ao longo de 2026, o Banco Central reduziu os juros em cinco ocasiões e, ainda assim, o real se valorizou, desmentindo a tese de que cortes na Selic levariam automaticamente à fuga de capitais.
Para o historiador, a insistência em manter juros altos é uma forma de luta de classes travestida de tecnicismo. Ele citou exemplos internacionais, como a política de juros zero adotada pelo Federal Reserve após 2008, o uso de taxas negativas pelo Banco Central Europeu e o controle estatal de juros na China, para demonstrar que o Brasil não está condenado a manter taxas reais de juros desproporcionalmente elevadas em relação ao resto do mundo.
Em resumo: - O déficit nominal brasileiro de 9,51% do PIB é composto majoritariamente por 8,99% de pagamento de juros, evidenciando o peso do custo financeiro. - Fernando Horta refuta a comparação com a Turquia, apontando que o Brasil possui reservas de US$ 372 bilhões e inflação de 4,58%. - A proposta de Lara Resende defende uma redução gradual dos juros, utilizando as reservas internacionais para conter riscos cambiais e aliviar o endividamento público.
Fonte: Brasil 247

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