Depois de 16 anos de poder, Angela Merkel deixa o cargo para Olaf Scholz e entra para a história

Portal Plantão Brasil
8/12/2021 09:24

Depois de 16 anos de poder, Angela Merkel deixa o cargo para Olaf Scholz e entra para a história

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790 visitas - Fonte: O Globo

BERLIM — Depois de 16 anos de poder e ainda com uma popularidade inoxidável, Angela Merkel deixa definitivamente a chancelaria hoje. Deixa também um grande vazio no mundo e um legado inigualável, sustentado pelo seu sentido de responsabilidade, mas criticado pela falta de visão.

Aos 67 anos e depois de 5.860 dias de poder, ela cederá o espaço ao socialdemocrata Olaf Scholz, que será eleito no Bundestag. Por apenas nove dias, a chanceler não baterá o recorde de longevidade de seu mentor, Helmut Kohl (1982-1998).



Para muitos alemães jovens, a chamada geração "Merkel", não existe outra chanceler além da "Mutti" (mamãe, em alemão), carinhoso apelido que recebeu em 31 anos como política.

Tanto tempo não parece ter abalado sua popularidade. Segundo pesquisa recente do Pew Institute, 72% dos entrevistados, em todo o mundo, confiam nela.

E parece bem longe o ano de 2019, quando a chanceler, à frente de uma grande coligação de direita e esquerda exausta, deu a impressão de ter sido esmagada pela mobilização dos jovens a favor do clima.



O maior desafio

Como símbolo do crepúsculo de seu governo, tremores incontroláveis atingiram Merkel durante várias cerimônias oficiais e levantaram dúvidas sobre a capacidade desta "quase infatigável" chanceler concluir seu quarto e último mandato.

Mas a pandemia de coronavírus inverteu a mesa. Três quartos dos alemães estão satisfeitos com sua ação à frente do país, de acordo com as pesquisas.

E até mesmo durante a pandemia, houve quem pedisse um quinto mandato — mas a primeira mulher a liderar a Alemanha descartou isso de uma vez.

Essa cientista soube se comunicar, pedagógica e racionalmente, para enfrentar o "maior desafio", segundo ela, desde a Segunda Guerra Mundial.



O confinamento, que a fez lembrar de sua vida na então RDA (República Democrática da Alemanha, comunista), constituiu, em sua opinião, "uma das decisões mais difíceis" de seus mandatos.

A pandemia e suas consequências demonstraram mais uma vez o seu pragmatismo e a sua capacidade de mudar de posição para reduzir a tensão política, um sentido de compromisso do chamado “merkelismo”.

Defensora fervorosa da austeridade após a crise financeira de 2008, Merkel agora se converteu à política de aumento de gastos e mutualização da dívida, única coisa, segundo ela, capaz de salvar o projeto europeu.

Em 2011, a catástrofe nuclear de Fukushima, no Japão, convenceu-a rapidamente a iniciar o abandono progressivo da energia nuclear na Alemanha.



Decisões de risco

Mas sua aposta política mais ousada veio em 2015, quando decidiu abrir as portas para centenas de milhares de sírios e iraquianos que pediam asilo. Apesar dos temores da opinião pública, ela prometeu integrá-los e protegê-los.

Assim, "Nós faremos!" talvez tenha sido a frase mais memorável proferida por Merkel, bastante relutante em discursos apaixonados.

Até então, essa doutora em Química que ainda carrega o sobrenome do primeiro marido e não tem filhos cultivava uma imagem de mulher prudente e até fria, sem arestas, que adora batata, ópera e caminhadas.



Para explicar a sua decisão histórica sobre os migrantes, tomada sem realmente consultar os seus parceiros europeus, invocou os seus "valores cristãos" e uma certa obrigação de dar exemplos por parte de um país que carrega o estigma do Holocausto.

Esta caridade cristã de Angela Kasner, seu nome de solteira, vem de seu pai, um pastor austero que voluntariamente foi morar com toda a sua família na Alemanha Oriental comunista e ateísta para pregar.

— Minha herança me marcou, especialmente o desejo de liberdade durante minha vida na RDA — disse ela no 30º aniversário da reunificação.

Mas o medo do Islã e os ataques levaram parte do eleitorado conservador a se refugiar no partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD). Um tabu foi quebrado na Alemanha e ela foi considerada culpada.



Mundo livre

No entanto, Merkel sempre assumiu sua decisão na crise migratória e, após o terremoto Donald Trump e Brexit, foi entronizada por muitos como a "líder do mundo livre" em face da ascensão do populismo.

Barack Obama, um dos quatro presidentes americanos que Merkel conheceu desde 2005, a descreve em suas memórias como uma líder "confiável, honesta e intelectualmente precisa" e uma "pessoa bonita".

A "Chanceler do Teflon", que parece imune a problemas, é um animal político tão particular quanto temível, e muitos de seus adversários a subestimaram.

Em 2000, arrogante e pouco carismática, ela se beneficiou de um escândalo financeiro em seu partido para assumir as rédeas da União Democrata Cristã (CDU), ultrapassando toda a hierarquia masculina.



Em 18 de setembro de 2005, ela se impôs sobre o chanceler social-democrata Gerhard Schröder (1998-2005). Esta primeira vitória foi seguida por outras três, em 2009, 2013 e 2017.

Em uma cerimônia de despedida do exército, quinta-feira, a chanceler emblemática reconheceu que esses 16 anos "pediram a ela esforços políticos e humanos".

E com seu país passando pelo pior momento da pandemia, ele alertou contra a “fragilidade” da “confiança” na ciência e na política, em uma época de “teorias da conspiração” e “discurso de ódio”.

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