Exportadores de café também escravizam empregados e recebem auxílio emergencial

Portal Plantão Brasil
7/3/2023 11:51

Exportadores de café também escravizam empregados e recebem auxílio emergencial

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2239 visitas - Fonte: DCM

Três palavras definem a essência dos irmãos Cesar Viana Klem e Sérgio Viana Klem: cidadãos de bem. Empresários do agronegócio, são donos das Fazendas Klem Importação e Exportação de Café Ltda, um conglomerado de 11 propriedades rurais localizadas no município de Manhumirim, no sudeste de Minas Gerais, a 278 quilômetros de Belo Horizonte.

Exibem com muito orgulho nada menos do que dez selos de certificação nacionais e internacionais de boas práticas ambientais e responsabilidade social, incluindo o norte-americano Starbucks C.A.F.E. Practices e o Selo Orgânico Europeo (CE) n°834/2007.

Produzem café orgânico e exportam para mais de dez países, “com alto padrão de sustentabilidade, garantindo um produto final de alta qualidade que atende às exigências dos mercados de cafés finos (gourmet) com suas diversidades de sabores e nuances”, conforme está escrito no site da empresa.

Cesar também possui consciência política, além de ambiental e social. Isso se nota logo ao entrar em sua página no Twitter, onde se lê: “Terrivelmente cristão. De direita. Bolsonarista. Família. Pátria. Deus acima de tudo”.



O empresário praticamente só fala sobre política em sua página na rede social. Além de compartilhar mensagens de pessoas como Carla Zambelli, Daniel Silveira, Milton Neves e Eduardo Bolsonaro, escreve as suas próprias, sempre em apoio ao “mito”, ou então com críticas e ofensas ao “Nove Dedos”, ou simplesmente “Nine”, que é como se refere ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Só o que Cesar não conta em suas redes ou nas propagandas de suas fazendas é quais são as condições de trabalho dos agricultores que ele “contrata”.

No final do ano passado, uma operação encabeçada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) flagrou e resgatou das Fazendas Kleim trabalhadores em condição análoga à escravidão, colhendo café de meias e descalços, pois não havia oferta de equipamentos de segurança, como botas.

Aliciados no município baiano de Caetanos, os safristas atuavam na informalidade, sem registro em carteira ou garantia de direitos trabalhistas. Haviam sido atraídos com a promessa de bons salários, mas as vítimas sequer dispunham de um abrigo para proteção contra sol e chuva ou para realizar as refeições na lavoura.

No primeiro dia de serviço, os trabalhadores relataram que, após chegar à fazenda, tiveram que ir a pé para a zona urbana de Manhumirim para comprar mantimentos, como comida, roupas e produtos de higiene. Já o alojamento era precário, conforme descreve o MPT: a água da torneira era de má qualidade, com cheiro e cor marrom; não havia onde armazenar os alimentos; o banheiro não funcionava, e as pessoas faziam xixi e cocô no mato, ao relento.

As condições de trabalho em que as vítimas se encontravam destoam da impressão causada pelos tantos selos de certificação de boas práticas que a fazenda exibe em seu site, onde se lê que “a mão-de-obra humana […] é uma aliado fundamental na produção, onde o homem e o café convivem em perfeita harmonia”.

Após o resgate dos trabalhadores, Cesar Viana Klem foi obrigado plas autoridades a realizar o pagamento das verbas rescisórias e multas trabalhistas e custeou a passagem de volta das pessoas escravizadas para o seu município de origem. Ainda assim, negou que estivesse cometendo qualquer irregularidade…

Uma das vítimas, o senhor Adésio de Brito, foi levada a Brasília depois de ser resgatada, para dar o testemunho do crime que sofreu aos parlamentares da Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados. Disse ele:

"Sofremos bastante lá, até a gente saber o que é que é trabalho escravo. Até aparentemente a gente não sabia o que era. Já tem 4 anos que a gente estava nessa luta, trabalhando lá, sofrendo, sofrendo, até que o Ministério Público achou a gente lá, resgatou a gente daquele lugar.

Nunca trabalhei com carteira assinada lá. Assim que nós chegamos, eles pegaram todos os nossos documentos, todos os nossos documentos. Eles disseram que iam nos cadastrar, para nos dar equipamentos, que nunca chegaram. E nunca fizeram cadastro nenhum.

Lá a gente trabalhava em situação precária, sem equipamento nenhum, de pé no chão, descalço, sem água potável. Água a gente levava em garrafa de refrigerante; esquentava, acabava, e a gente ficava com sede, trabalhava com sede.

Quero falar aos meus amigos que não tenham medo de denunciar, porque o trabalho escravo é crime, é um sofrimento que só quem sentiu na pele sabe. Eles só querem se aproveitar da gente.

Enquanto isso, as Fazendas Klem seguem sua trajetória de sucesso no mercado nacional e internacional de café orgânico certificado por boas práticas.


Só fica difícil entender por que o filho do senhor Sérgio Viana Klem, um dos donos do negócio, recebeu por 16 meses o auxílio emergencial pago pelo governo a quem não tinha como se sustentar durante a pandemia de covid. Seu nome é Sérgio Viana Klem Júnior, ele é advogado e empresário, dono da Distribuidora de Gás Klem, empresa contratada pela prefeitura de Luisburgo, vizinha a Manhumirim, para distribuir mantimentos na cidade.

Como se disse, todos autênticos cidadãos de bem.


Sergio Viana Klem Júnior: herdeiro de 11 fazendas e beneficiário do auxílio emergencial (fonte: governo federal)


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