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A inteligência artificial ultrapassou as fronteiras do debate estritamente técnico ou econômico para se consolidar como o novo centro da disputa de poder, soberania e segurança nacional no cenário internacional. Essa é a reflexão central apresentada pelo embaixador Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República. A recente decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de convocar ministros e especialistas para tratar do tema demonstra que o governo brasileiro encara a IA como infraestrutura crítica do Estado, comparável às redes de energia, sistemas de telecomunicações e defesas militares.
A preocupação da diplomacia brasileira está fundamentada nos riscos de uma nova dependência tecnológica global, em que poucas potências e megacorporações monopolizam a capacidade computacional, semicondutores e grandes modelos de linguagem. Com o mercado amplamente dominado por empresas sediadas nos Estados Unidos e na China, o Brasil e os países do Sul Global enfrentam a ameaça de serem reduzidos a meros consumidores de tecnologia estrangeira e fornecedores de dados brutos. Diante disso, a retenção e proteção de dados estratégicos, como registros de saúde e recursos naturais, passa a ser um imperativo de soberania nacional.
Para combater a assimetria global, o Brasil tem atuado ativamente na formulação de novas instâncias internacionais, como a Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, lançada em Xangai com a presença das Nações Unidas. O objetivo da diplomacia liderada por Amorim é assegurar que os países em desenvolvimento participem diretamente da criação das regras regulatórias internacionais, evitando que a governança da IA repita os velhos vícios da ordem geopolítica imperialista. Nessa linha, defende-se o uso de modelos de código aberto como ferramenta essencial para democratizar a inovação e reduzir o domínio corporativo.
A reflexão de Amorim abrange ainda os impactos éticos, trabalhistas e militares decorrentes do avanço descontrolado dos algoritmos. Além dos riscos impostos pela desinformação em massa e pela indústria da manipulação digital que ameaça democracias, há um alerta urgente para a proliferação de armas autônomas em cenários de guerra. Ao defender que o progresso tecnológico deve servir à emancipação humana e à redução das desigualdades sociais, o assessor de Lula reafirma que a construção de uma política industrial e tecnológica soberana é o único caminho para garantir o protagonismo autônomo do Brasil no século XXI.
Com informações da Folha de S. Paulo
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