Política · Justiça

Plano de Flávio Bolsonaro para o Cerrado ignora crise hídrica e avanço da seca

Candidato do PL propõe ampliar irrigação no Matopiba, região onde o agronegócio já causa o desaparecimento de nascentes e rios.

Foto: Reservatório, conhecido como piscinão, utilizado para abastecer pivôs de irrigação de uma grande fazenda, na zona rural de Jaborandi (BA) - Lalo de Almeida - 14.mar.24/Folhapress · Original e licença

Em seu plano de governo, o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) aposta na expansão da irrigação como pilar para o desenvolvimento do agronegócio, com foco especial na região do Matopiba — que compreende áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. A proposta inclui a simplificação das outorgas para extração de água, medida que, segundo especialistas, ignora o cenário de colapso hídrico já enfrentado pelo Cerrado.

Enquanto o candidato promete incentivar polos de irrigação, a realidade no oeste baiano, coração do Matopiba, aponta para um caminho oposto. Estudos científicos e dados de monitoramento revelam que a expansão desenfreada de pivôs centrais para monoculturas de soja, milho e algodão tem provocado a redução drástica na vazão de rios e a extinção de nascentes. Um artigo publicado na revista Water, em 2021, demonstrou que, entre 1986 e 2018, a vazão do rio Pratudão caiu 38% em paralelo ao crescimento das áreas irrigadas.

A situação é tão crítica que o Ministério Público Federal (MPF) acionou a Justiça em novembro passado, exigindo uma reforma na gestão hídrica do sudoeste da Bahia. O órgão alerta que a conversão de vegetação nativa para a agropecuária de larga escala reduziu em até 50% a vazão de rios e veredas no entorno do Parque Nacional Grande Sertão Veredas. Além disso, um estudo da Nature Communications de 2024 indicou que 61% dos rios na bacia do São Francisco correm risco de secar devido ao uso intensivo de águas subterrâneas para irrigação.

Yuri Salmona, diretor-executivo do Instituto Cerrados, critica a ideia de facilitar ainda mais o acesso à água. Para ele, os critérios atuais já são permissivos e carecem de fiscalização efetiva após a concessão. A reportagem tentou contato com a campanha de Flávio Bolsonaro nos dias 20 e 21 de outubro para esclarecimentos sobre as propostas, mas não obteve retorno.

Em resumo

  • Flávio Bolsonaro propõe simplificar outorgas e ampliar a irrigação no Matopiba.
  • Pesquisas apontam que a irrigação intensiva é a principal causa da redução de rios no oeste baiano.
  • O MPF pede suspensão de novas outorgas no sudoeste da Bahia para evitar danos ambientais irreversíveis.
  • Comunidades locais já identificaram o desaparecimento de mais de 7 mil quilômetros de cursos d'água na região.

Fonte: Folha de S.Paulo

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