A resistência das periferias: como o luto se transforma em agência política no Rio
Um ano após a chacina no Complexo do Alemão, pesquisador Daniel Silva discute na Unesp como comunidades periféricas produzem conhecimento e esperança radical.

Foto: Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil · Original e licença
Um ano após a chacina que marcou os complexos do Alemão e da Penha, o debate sobre a violência estatal e a resistência territorial ganha novos contornos acadêmicos. Em conferência na Unesp, a convite da professora Matheux Shwartzmann, o pesquisador Daniel Silva apresentou uma análise sobre como as comunidades periféricas do Rio de Janeiro utilizam recursos semióticos para disputar a memória pública e construir possibilidades de futuro.
O pesquisador destacou a atuação dos moradores no resgate e organização dos corpos das vítimas na Praça do Terço, logo após a operação. Para Silva, o gesto não foi apenas uma manifestação de luto, mas uma intervenção política sofisticada. Ao assumirem o protagonismo da denúncia, os moradores romperam com a narrativa oficial, transformando o espaço público em um local de resistência e produção de sentidos contra a violência do Estado.
Durante a aula, Silva questionou a hegemonia de pesquisas de opinião tradicionais, como as da Quaest, ao contrapor dados coletados por coletivos territoriais, como o Instituto Cimento e o Papo Correto, em parceria com a UFRJ e a UERJ. O levantamento, que ouviu cerca de 4 mil moradores, revelou um cenário de profunda rejeição ao modelo de segurança pública vigente:
- Entre 56% e 73% de rejeição às operações policiais nos territórios;
- 95% de percepção de que as ações não trazem melhorias à vida local;
- 92% de rejeição ao modelo violento e 91% de relatos de abusos policiais;
- 78% de medo da atuação das forças de segurança.
Ao recorrer ao conceito de 'esperança radical', o pesquisador propôs que a universidade desloque seu olhar do sofrimento para a agência das comunidades. Segundo Silva, a esperança não é um sentimento abstrato, mas uma prática concreta de quem questiona estatísticas e constrói estratégias de transformação. O debate reforça a necessidade de reconhecer os moradores das periferias como produtores legítimos de teoria e memória.
Em resumo
- Pesquisador Daniel Silva debateu na Unesp a agência política de moradores após a chacina no Alemão e na Penha.
- Estudo realizado por coletivos e universidades aponta rejeição massiva ao modelo de segurança militarizada.
- A conferência defendeu que comunidades periféricas devem ser protagonistas na produção de conhecimento sobre a violência que sofrem.
Fonte: Brasil 247

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