Política

O avanço conservador: como a pauta religiosa molda a nova direita feminina

Análise sobre a ascensão de mulheres conservadoras na política brasileira, o uso da fé como estratégia eleitoral e os impactos nas pautas de gênero.

As eleições de 2026 consolidaram um fenômeno crescente no Brasil: a ocupação de espaços de poder por mulheres alinhadas ao campo conservador, que utilizam a religião como principal alicerce de suas trajetórias. Embora o pleito tenha registrado o maior número de candidaturas femininas da história, a análise de especialistas aponta que esse crescimento não se traduz, automaticamente, em uma agenda de ampliação de direitos ou combate às desigualdades de gênero.

Segundo o relatório da Casa Galileia, a estratégia conservadora baseia-se na criação de redes que fundem vínculos religiosos, formação política e articulação partidária. Figuras como a senadora eleita pelo Distrito Federal, Michelle Bolsonaro (PL), e a parlamentar Damares Alves (Republicanos) exemplificam como a linguagem religiosa é convertida em capital político. Esse movimento é reforçado por iniciativas como o Movimento Mulheres Conservadoras, que apresenta a atuação pública como uma extensão dos valores domésticos e da fé.

A socióloga Maria José Rosado, fundadora da ONG Católicas pelo Direito de Decidir, alerta que temas como família e maternidade foram apropriados pela extrema direita para manter mulheres em posições de submissão. Para a pesquisadora, o discurso conservador utiliza a religião para justificar a manutenção de estruturas tradicionais, muitas vezes deslegitimando políticas de proteção contra a violência de gênero. Um exemplo citado é a deputada estadual eleita por São Paulo, Eduarda Campopiano (PL), que obteve quase 2 milhões de votos com um discurso que nega a existência do feminicídio.

Por outro lado, estudos do Instituto de Estudos da Religião (Iser), coordenados pela pesquisadora Lívia Reis, indicam que a relação entre fé e voto é complexa. A pesquisa mostra que, embora a identidade religiosa seja um marcador importante, as eleitoras não seguem cegamente as orientações de lideranças. Muitas mulheres evangélicas, inclusive, divergem de pautas radicais, defendendo o acesso a direitos reprodutivos em casos previstos em lei e o combate à violência doméstica, demonstrando que a doutrina não é vivida como um bloco fechado.

O cenário político atual reflete uma disputa intensa pela sucessão simbólica de Jair Bolsonaro. A radicalização, segundo especialistas, tornou-se uma estratégia de visibilidade, onde candidatas que atacam o feminismo ganham destaque ao oferecer uma aparência de legitimidade a pautas que, quando defendidas por homens, encontram maior resistência social.

Em resumo

  • O PL consolidou a maior bancada na Câmara em 2026, com 121 deputados, incluindo 22 mulheres.
  • A religião atua como ferramenta de legitimação para mulheres conservadoras ocuparem espaços historicamente masculinos.
  • Pesquisas indicam que, apesar do discurso conservador, parte do eleitorado feminino mantém posições progressistas sobre direitos sociais e combate à violência.
  • A negação de pautas de gênero, como o feminicídio, tem sido utilizada como estratégia de radicalização por novas lideranças políticas.

Fonte: ICL Notícias

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