Documentos revelam que general Heleno defendeu mortes para impor autoridade no Haiti
Telegramas diplomáticos de 2004 mostram que o general Augusto Heleno sugeriu ataques e mortes para recuperar a credibilidade das tropas brasileiras na missão da ONU no Haiti, contrariando outros comandantes.

Foto: O general Heleno (à esquerda), comandante das operações de paz da ONU no Haiti, e José Viegas, ministro da Defesa, durante coletiva de imprensa em 8 de julho de 2004, em Porto Príncipe. Foto: AFP/Thony Belizaire · Original e licença
Registros diplomáticos tornados públicos em janeiro de 2026 trazem à tona uma faceta pouco conhecida da atuação do general Augusto Heleno durante sua passagem pelo Haiti. Em outubro de 2004, enquanto comandava a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH), o militar defendeu que a tropa brasileira deveria adotar uma postura mais agressiva, sugerindo que ataques e até mortes seriam necessários para restaurar a autoridade dos soldados perante a população local.
A posição de Heleno foi detalhada em comunicações enviadas pela Embaixada do Brasil em Porto Príncipe ao Itamaraty. Segundo o embaixador Armando Vitor Boisson Cardoso, o general acreditava que a percepção de que os brasileiros evitariam o uso da força estava enfraquecendo a missão e humilhando o contingente. Para o comandante, a simples presença militar não bastava como intimidação, sendo preciso partir para ações concretas de combate.
Essa visão, contudo, não era unânime entre os oficiais brasileiros. O general Américo Salvador de Oliveira, que exercia o comando direto das tropas no terreno, manifestou forte resistência à ideia. De acordo com os telegramas, Salvador temia que a escalada da violência resultasse em retaliações contra os soldados e preferia seguir uma interpretação mais cautelosa do mandato da ONU, evitando o envolvimento direto em ações policiais de alto risco.
O ímpeto de Heleno encontrou respaldo na diplomacia dos Estados Unidos. O então embaixador americano no Haiti, James Foley, pressionava por uma resposta militar mais dura, mesmo diante de ameaças que não haviam sido confirmadas. Foley argumentava que a falta de uma postura agressiva minava a credibilidade da missão, uma preocupação que, segundo relatos da época, também estava ligada aos interesses eleitorais de Washington naquele período.
A escalada na retórica militar teve desdobramentos práticos meses depois. Em julho de 2005, a operação Punho de Ferro, realizada em Cité Soleil sob o comando de Heleno, utilizou um volume massivo de munição: foram 22.700 cartuchos disparados, além de granadas e morteiros. A ação gerou críticas internacionais e denúncias de organizações humanitárias sobre a morte de civis, incluindo mulheres e crianças, em um cenário onde a desproporcionalidade do uso da força foi questionada até por diplomatas americanos.
Augusto Heleno, que mais tarde se tornaria ministro do GSI no governo de Jair Bolsonaro, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 21 anos de prisão por seu envolvimento na tentativa de golpe de Estado de 2022 e atualmente cumpre pena em regime domiciliar.
Em resumo: - Telegramas de 2004 revelam que o general Heleno defendeu ataques e mortes para reforçar a autoridade das tropas brasileiras no Haiti. - O general Américo Salvador de Oliveira divergia da estratégia, temendo que o uso da força provocasse baixas entre os soldados brasileiros. - A operação Punho de Ferro, em 2005, disparou mais de 22 mil cartuchos, levantando graves suspeitas sobre mortes de civis e uso desproporcional de armamento. - O embaixador dos EUA no Haiti, James Foley, apoiava a postura de Heleno, pressionando por uma resposta militar mais agressiva.
Fonte: ICL Notícias

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