Economia

O trilhão invisível: por que o ajuste fiscal ignora os juros que drenam o orçamento?

Enquanto o debate sobre cortes recai sobre áreas sociais, o pagamento de juros da dívida pública consumiu mais de R$ 1 trilhão em 2025, superando investimentos em saúde e educação.

Foto: - Bolsa Família x Bolsa de Valores: onde deve ocorrer o ajuste fiscal? (Rafael Henrique AtoPress Folhapress / Cris Faga NurPhoto via AFP) · Original e licença

O debate sobre o ajuste fiscal no Brasil vive uma contradição profunda. Enquanto o mercado financeiro e setores da mídia pressionam por cortes em políticas sociais, como o Bolsa Família, e pela desvinculação de verbas de saúde e educação, um valor astronômico segue sendo drenado anualmente para o pagamento de juros da dívida pública. Em 2025, esse montante atingiu R$ 1,0076 trilhão, segundo dados do Banco Central.

Para se ter uma ideia da desproporção, esse valor representa 20,1% de todo o orçamento da União executado no ano. O custo financeiro foi mais de quatro vezes superior ao que foi aplicado em saúde (R$ 234,5 bilhões) e quase oito vezes o montante destinado à educação (R$ 129,9 bilhões). Além disso, os juros superaram em mais de seis vezes os gastos com o Bolsa Família, que somaram cerca de R$ 158 bilhões.

O impacto desse pagamento é direto nas contas públicas. O setor público consolidado encerrou 2025 com um déficit primário de R$ 55 bilhões. No entanto, ao incluir o custo financeiro, o déficit nominal salta para R$ 1,0626 trilhão, o que significa que os juros foram responsáveis por 94,8% do resultado negativo. Diferente dos investimentos sociais, que possuem multiplicadores econômicos comprovados — como o estímulo ao consumo e à circulação de renda —, o pagamento de juros é visto por especialistas como um gasto de baixo retorno produtivo, que acaba retroalimentando o próprio sistema financeiro.

Economistas como Paulo Kliass criticam a seletividade do discurso de austeridade. Segundo ele, a contradição entre a pressão contra programas de transferência de renda e o volume de recursos destinados aos detentores da dívida é flagrante. Já a economista Maria Lúcia Fatorelli, da Auditoria Cidadã da Dívida, aponta que, enquanto os beneficiários de gastos sociais são detalhados no Portal da Transparência, os grandes rentistas que recebem a fatia trilionária dos juros permanecem sob um sigilo que ela classifica como escandaloso.

Embora o professor Gustavo Pessoa, da FGV, ressalte que a redução da taxa Selic seja um caminho para aliviar esse peso, ele alerta que o processo exige cautela para evitar instabilidades cambiais. Contudo, o debate permanece aberto: a pergunta que ecoa é por que o equilíbrio das contas públicas é buscado prioritariamente pelo lado das despesas sociais, enquanto a remuneração da dívida, que consome uma parcela colossal do orçamento, raramente é colocada na mesa de negociações como alvo de revisão.

Em resumo

  • O pagamento de juros da dívida pública atingiu R$ 1,0076 trilhão em 2025, superando drasticamente os investimentos em saúde, educação e programas sociais.
  • Os juros foram responsáveis por 94,8% do déficit nominal do setor público consolidado no mesmo período.
  • Especialistas apontam que o modelo atual de remuneração da dívida favorece a concentração de renda e possui baixo impacto no crescimento do PIB em comparação aos gastos sociais.

Fonte: Revista Fórum

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