Política · Economia

O enigma das urnas: por que as velhas análises políticas já não explicam o Brasil?

Artigo analisa a desconexão entre interesses sociais e o voto no bolsonarismo, questionando por que as explicações tradicionais perderam a eficácia diante da realidade atual.

Foto: Registro de 15 de janeiro de 1985, quando Tancredo foi eleito presidente do Brasil pelo Colégio Eleitoral. Foto: Arquivo/Agência Senado · Original e licença

O cenário político brasileiro impõe um desafio crescente aos analistas: a lógica eleitoral parece ter rompido com as explicações tradicionais do século 20. Em diversas regiões, o comportamento do eleitorado desafia a racionalidade econômica e social, consolidando o bolsonarismo em redutos onde, teoricamente, os interesses dos cidadãos estariam em conflito direto com a agenda da extrema direita.

Dados recentes ilustram essa complexidade. No Rio de Janeiro, bairros sob influência de milícias deram vitórias expressivas a Flávio Bolsonaro. Da mesma forma, a região da soja no Rio Grande do Sul, altamente dependente das exportações para a China, votou maciçamente no candidato que antagoniza o principal parceiro comercial do setor. Além disso, um levantamento da Folha de S. Paulo apontou que, dos 100 municípios mais atingidos pelo 'tarifaço' de Donald Trump, Lula foi derrotado em 92.

A desconexão também se reflete na esfera moral e administrativa. Em Aparecida, o candidato bolsonarista superou Lula com 58,3% dos votos contra 32,1%. No Rio, a eleição de Douglas Ruas — ex-policial sob investigação por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa — em detrimento de figuras como Benedita da Silva, reforça a dificuldade de compreender os critérios que guiam o eleitorado atual. O fato de Flávio Bolsonaro ter superado a votação do pai em 2022 em quase todos os 5.571 municípios brasileiros sugere uma adesão que transcende a política tradicional.

Para o historiador Tau Golin, o fenômeno não pode ser reduzido à alienação. Segundo o autor, o eleitor tornou-se um 'militante ativo do sistema que o criou', transformando a idolatria aos Bolsonaro em uma realização histórica. Diante desse quadro, as ferramentas de análise que nos consolavam nas últimas décadas parecem ter perdido a funcionalidade, deixando o país diante de um comportamento eleitoral que, como sugere o colunista Moisés Mendes, desafia qualquer explicação convencional.

Fonte: Diário do Centro do Mundo

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