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21/5/2020 07:55

Ainda bem que... - Lula demonstrou inteligência política e generosidade ao se desculpar

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1437 visitas - Fonte: Blog do Moisés Mendes

Não vamos pedir proteção à obra, porque talvez nem seja o caso. Mas podemos pedir proteção à memória de Ruy Fausto, o filósofo que morreu no dia 1° de maio em Paris e foi encontrado recostado no piano.

Ruy Fausto encheu o saco de muita gente, em especial do PT, com seus livros e artigos sobre os descaminhos das esquerdas no Brasil.

Pensador do marxismo, se desse para resumir o que ele escreveu, esse seria meu resumo preferido: as esquerdas somente terão sentido se não pensarem, não agirem e não reproduzirem o que condenam na direita.


E as esquerdas, historicamente, dizia ele, fizeram quase sempre o que condenaram. Muitas vezes foram autoritárias, burocráticas, cruéis, foram aliancistas, preconceituosas e foram também corruptas.

Eu me inspiro em Ruy Fausto (que boa parte do PT odiava) para escrever essas linhas sobre a controvérsia em torno da frase de Lula sobre pandemia e Estado, na entrevista a Mino Carta. Essa é a parte da frase que provocou a confusão:

“Ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus. Porque esse monstro está permitindo que os cegos comecem a enxergar que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises. Essa crise do coronavírus, somente o Estado pode resolver isso, como foi a crise de 2008”.


O que podemos dizer, depois do pedido de desculpas de Lula pela frase, é: ainda bem que temos Lula.

As esquerdas, dizia Fausto, devem perseguir o que está nas suas origens. Essa era sua lista básica do que não poderia ser negociado: igualdade, liberdade, solidariedade, respeito mútuo entre cidadãos e governantes e justiça social.

E as esquerdas só sobrevivem se forem generosas. O que Lula fez, pedindo desculpa, é mais do que inteligência política, é parte dessa generosidade sincera.


Lula não precisava pedir desculpas para nós que entendemos o que ele disse, mas que reconhecemos que poderia, em outra versão bem mais incisiva, ter sido dito assim:

“Que merda que seja preciso ver a natureza, contra a vontade da humanidade, criar esse monstro chamado coronavírus, para que esse bicho denuncie as farsas do capitalismo”.

Lula não precisava pedir desculpas aos que saíram logo a defendê-lo, como deveria ter sido feito. Ele pediu desculpas aos que podem ter se ofendido com a frase, e não para dar resposta à direita oportunista que a explorou.

Quem disse que Lula estava certo poderia pelo menos considerar a possibilidade de que ele cometeu um erro de comunicação. Mas esse é o detalhe técnico e subjetivo, tanto que rendeu controvérsia.


Há outro detalhe a ser considerado. E aí entra a questão, também incluída nas abordagens de Ruy Fausto, sobre alguns dos dilemas da esquerda: o confronto da ética da convicção com a ética da responsabilidade.

É tão simples. Por alguma certeza da ética da convicção, da sua visão particular das coisas, Lula poderia ter insistido que estava certo e ficar em paz com os que o entenderam e defenderam. Era a sua visão pessoal, era aquilo e pronto.

Pela ética da responsabilidade, que prevaleceu, ele admitiu: a todos os que se incomodaram com o que eu disse, admito que errei. Lula não poderia pensar apenas nos que o entenderam, mas nos que se surpreenderam e ficaram chateados com o que disse.


E a confissão do erro aqui, porque a frase assumiu dimensão política não desejada, é o que o diferencia de outras figuras, principalmente da extrema direita.

Nem vamos citar nomes dos que poderiam hoje pedir desculpas (e nem isso fazem), não por frases, mas por seus atos fascistas.

Lula será diferente e somente irá sobreviver como Lula se for eticamente responsável inclusive pelos possíveis danos de uma frase. Foi o que ele fez. E pode fazer mais.

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