362 visitas - Fonte: Folha de São Paulo
Os procuradores que assinam a ação de improbidade administrativa movida contra o presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmam que ele praticou uma conduta "imoral e manifestadamente ilícita" por 15 anos, período em que manteve Walderice Santos da Conceição, conhecida como Wal do Açaí, formalmente como secretária de seu gabinete parlamentar.
A conclusão do Ministério Público é a de que Wal era funcionária fantasma, conforme revelado pela Folha em janeiro de 2018, quando Bolsonaro ainda era deputado federal pelo Rio de Janeiro.
"Tal conduta, absolutamente imoral e manifestamente ilícita, foi reiteradamente praticada por mais de 15 anos, somente tendo cessado em razão da repercussão negativa, após divulgação pela imprensa, durante a última campanha eleitoral", escreve o Ministério Público.
Apesar de a ação ter sido assinada por oito procuradores da República, a condução das investigações foi do procurador João Gabriel Morais de Queiroz.
No depoimento dado durante as investigações, Walderice não apresenta quase nenhum indicativo de que de fato tenha exercido alguma atividade legislativa para Bolsonaro, confirmando jamais ter ido a Brasília, por exemplo.
Ela mora na pequena Vila Histórica de Mambucaba, em Angra dos Reis (RJ), na mesma rua em que Bolsonaro tem uma casa de veraneio.
Wal também deu declarações que contradizem manifestações públicas do presidente da República em relação ao caso.
Entre outras, Wal diz que sempre falava com Bolsonaro e praticamente só com ele. Já o hoje presidente disse que o contato dela se dava com outros assessores de seu gabinete na Câmara, não com ele.
Wal também diz que escondeu dos moradores de Mambucaba que era secretária parlamentar de Bolsonaro. Já o então deputado dizia que a função da assessora era levar a ele demandas de moradores da localidade.
Segundo vários moradores da região ouvidos pela Folha em 2018, Wal prestava serviços particulares na casa de Bolsonaro. Ainda segundo eles, o marido, Edenilson, era caseiro do presidente.
"Mambucaba fica a mais de 50 km de distância do centro de Angra dos Reis e, segundo asseverado por Walderice e Edenilson, a quantidade de moradores não chega a 300, sendo boa parte parente de Walderice", diz o Ministério Público Federal.
Os procuradores prosseguem: "Não há como justificar a manutenção de um secretário parlamentar, com jornada laboral de 40 horas semanais, exclusivamente para receber as demandas de seus habitantes, sobretudo quando o próprio Bolsonaro declarou não ter interesse nem ser o representante dos eleitores daquela região".
De acordo com a peça do Ministério Público, ainda que se admita que Wal recebesse demandas dos cerca de 300 moradores e as repassasse esporadicamente ao deputado, "tal atividade não justifica, por si só, sua manutenção no cargo de secretário parlamentar por mais de 15 anos"
Em janeiro de 2018, quando a Folha revelou o caso, Bolsonaro não soube detalhar serviços legislativos prestados pela assessora na cidade. Depois, afirmou que ela trabalhava na loja de açaí porque estava de férias na data em que os repórteres estiveram na vila.
Em agosto do mesmo quando, em horário de expediente da Câmara, a reportagem voltou ao estabelecimento e encontrou Wal trabalhando na pequena venda.
A reportagem comprou um açaí e um suco de cupuaçu e conversou com a assessora, que afirmou que trabalhava na loja que leva seu nome, Açaí da Wal, todas as tardes. Em nenhum momento deu indicativo ou soube dizer que tipo de serviço legislativo prestaria a Bolsonaro.
Nesse mesmo dia, ela pediu demissão do cargo. Ao anunciar a saída da assessora, o então candidato à Presidência disse em Brasília que o "crime dela foi dar água para os cachorros" de sua casa de veraneio.
Wal figurava como secretária parlamentar do gabinete parlamentar de Bolsonaro em Brasília desde 2003, e recebia, em 2018, salário bruto de R$ 1.416,33 (em valores não corrigidos).
Em determinados momentos desses 15 anos, ela chegou a receber valores superiores, integrando uma leva de assessores que tiveram uma frequente variação salarial no gabinete no então deputado federal e hoje presidente da República.
A análise dos documentos relativos aos 28 anos em que Jair Bolsonaro foi deputado federal, de 1991 a 2018, mostra uma intensa e incomum rotatividade salarial de seus assessores, atingindo cerca de um terço das mais de cem pessoas que passaram por seu gabinete nesse período.
O modelo de gestão incluiu ainda exonerações de auxiliares que eram recontratados no mesmo dia, prática que acabou proibida pela Câmara dos Deputados sob o argumento de ser lesiva aos cofres públicos.
Desde a primeira reportagem da Folha sobre o caso de Wal do Açaí, Bolsonaro deu diferentes e conflitantes versões sobre a assessora para tentar negar irregularidades, todas elas não condizentes com a realidade.
Na primeira entrevista que deu ao Jornal Nacional, da TV Globo, após ser eleito, Bolsonaro atacou a Folha e voltou a usar argumentos pela metade e sem respaldo fático para dizer que, "por si só esse jornal se acabou".
"Aproveito o momento para que nós realmente venhamos fazer justiça aqui no Brasil. Tem uma senhora de nome Walderice, minha funcionária, que trabalhava na Vila Histórica de Mambucaba e tinha uma lojinha de açaí", disse Bolsonaro na entrevista, acrescentando:
"O jornal Folha de S.Paulo foi lá, nesse dia, 10 de janeiro, e fez uma matéria e a rotulou de forma injusta como ’fantasma’. É uma senhora, mulher, negra e pobre. Só que nesse dia 10 de janeiro, segundo boletim ’A iniciativa da Câmara’, de 19 de dezembro, ela estava de férias."
"Então, ações como essa por parte de uma imprensa, que mesmo a gente mostrando a injustiça que cometeu com uma senhora, ao não voltar atrás, logicamente que eu não posso considerar essa imprensa digna."
Em 2020, a ex-assessora de gabinete se lançou candidata ao cargo de vereadora em Angra dos Reis, com apoio do clã Bolsonaro, mas obteve apenas 266 votos e não foi eleita.
Plantão Brasil foi criado e idealizado por THIAGO DOS REIS. Apoie-nos (e contacte-nos) via PIX: apoie@plantaobrasil.net
Follow @ThiagoResiste
APOIE O PLANTÃO BRASIL - Clique aqui!
Se você quer ajudar na luta contra Bolsonaro e a direita fascista, inscreva-se no canal do Plantão Brasil no YouTube.