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22/9/2022 17:48

ESCÂNDALO! Empresário denuncia esquema de proprina dentro de pneu, que Bolsonaro teria agido para acobertar

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6939 visitas - Fonte: O Estadão

BRASÍLIA - O ex-ministro da Educação Milton Ribeiro deu aval para que contratos de obras federais de escolas fossem negociados em troca de propina para os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, disse ao Estadão o empresário do setor da construção civil Ailson Souto da Trindade, candidato a deputado estadual pelo PP no Pará. O acordo previa que o dinheiro vivo, segundo Trindade, seria escondido na roda de uma caminhonete para ser levado de Belém (PA) até Goiânia (GO), onde está a sede da igreja dos pastores. A propina cobrada era de R$ 5 milhões.





O empresário conta como aconteceu a proposta para recebimento de propinas:









A denúncia traz novos elementos para o inquérito que tramita sob sigilo no Supremo Tribunal Federal (STF) por indícios de interferência de Jair Bolsonaro (PL) na investigação contra o ex-ministro da Educação. O caso já resultou na prisão de Milton Ribeiro e de dois pastores. A investigação policial foi aberta após o Estadão revelar, em março, a existência de um “gabinete paralelo” no MEC controlado por Gilmar e Arilton para facilitar o acesso à pasta. Prefeitos relataram que os pastores cobravam propina em dinheiro, compra de bíblias e até em ouro para liberar verbas e acesso ao ministro.



Em entrevista gravada concedida ao Estadão, Trindade sustentou ter ouvido do então ministro, no MEC, em 13 de janeiro do ano passado, que obras públicas estariam garantidas a ele. Segundo relato do empresário, o ministro teria dito que ele precisaria em troca “ajudar” a igreja dos pastores. O acerto, diz, foi proposto em seguida pelo pastor Gilmar: o repasse de R$ 5 milhões em dinheiro vivo.





“Funcionou assim: o ministro fez uma reunião com todos os prefeitos (no prédio do MEC, dia 13 de janeiro de 2021). Depois houve o coquetel, num andar mais acima. Lá, a gente conversou, teve essa conversa com o ministro. Eu não sabia nem quem era o ministro. Ele se apresentou: ‘Eu sou Milton, o ministro da Educação, e o Gilmar já me passou o que ele propôs para você e eu preciso colocar a tua empresa para ganhar licitações, para facilitar as licitações. Em troca você ajuda a igreja. O pastor Gilmar vai conversar com você em relação a tudo isso’, relata o empresário.





A propina seria mascarada por meio de um contrato fictício firmado entre a igreja de Gilmar e a empresa de Trindade. “Eles falaram: ‘existe uma proposta para tu fazer isso (as obras)’. Aí eu disse: ‘que proposta?’. ‘Bom, a gente está precisando reformar umas igrejas e estamos precisando também construir alguns templos, no Maranhão, no Pará, e também outros lugares. Então estamos precisando de R$ 100 milhões para fazer isso’. Aí eu falei: ‘mas o que que eu vou ganhar em troca? Como é que vai acontecer? A igreja vai contratar minha empresa?’ ‘Não, a gente faz um contrato, entendeu? Faz o contrato com a empresa, a igreja contrata a tua empresa e eu consigo articular para tua empresa fazer as obras do governo federal’”, teria dito Ailton, conforme narrou o empresário.



Trindade é candidato a deputado estadual do Pará pelo PP e responde por crime de estelionato depois de ser acusado de aplicar golpes com promessa de liberação de empréstimos para beneficiários do Bolsa Família. Ele diz que jamais foi intimado judicialmente e por isso ainda nem recorreu. Também afirma que não há impedimento eleitoral.





As datas dos encontros relatados pelo empresário batem com o registro de entrada dele no ministério, em Brasília, com fotos nas redes sociais e com a agenda de Milton Ribeiro e dos pastores. Parte da negociação teria ocorrido durante um almoço com prefeitos, após a reunião no MEC, em um restaurante tradicional do DF. Em seguida, finalizada com Gilmar e Arilton no escritório da Igreja Evangélica Assembleia de Deus - Ministério Cristo para Todos, em Goiânia. A reportagem confirmou a participação de quatro prefeitos no almoço.





Registro de entrada e saída do empresario Ailson Souto no Ministério da Educação



Para que as obras fossem garantidas, o primeiro repasse deveria ser quase imediato. “Eles queriam R$ 5 milhões em dois dias. Eu falei: ‘mas eu não posso fazer esse tipo de negócio, eu sou empresário, eu não vou fazer uma coisa assim sem nenhum contrato’. E eles queriam que eu colocasse no pneu de uma caminhonete e mandasse para lá. Eu disse: ‘não, gente, vamos fazer em conta porque como é que eu vou saber... se não der certo, como vou provar que eu paguei?’ Aí eu fiquei com medo desse tipo de negociata. Daí queriam 5 milhões logo e depois de 15 dias queriam mais R$ 50 milhões”, disse.





Proposta de contrato entre empresa de Ailson da Trindade e igreja dos pastores acusados de operar o "gabinete paralelo" no MEC





O documento tratava da contratação da AST Empreendimentos Imobiliários pela Igreja Evangélica Assembleia de Deus - Ministério Cristo para Todos, de Goiânia. A AST foi aberta por Trindade em 2006, em Belém, e hoje tem sede em São Paulo. “O objetivo desse contrato é o fornecimento de mão de obra em serviços do ramo de construção e reformas (...) O presente contrato é de duração indeterminada, vigendo a partir de sua assinatura”, dizem as cláusulas, que fazem referência, mas não especificam valores.



A reportagem teve acesso ao arquivo enviado para o Botelho Advogados, escritório de advocacia de Belém que à época prestava serviços para a empresa de Trindade. Os metadados do documento indicam que ele foi criado em 19 de janeiro do ano passado, seis dias após a reunião no Ministério da Educação. Procurado para informar o nome do remetente do arquivo, o escritório alegou que não poderia revelar por razões éticas e contratuais.





O primeiro compromisso de Milton Ribeiro, a 13 de agosto, foi informado na agenda pública como “café da manhã com prefeitos - alinhamento político”. Os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura aparecem na relação de presentes. O empresário Trindade não está listado como participante do encontro, mas apresentou fotos feitas durante a reunião. Os registros oficiais de visitantes no MEC mostram que ele entrou no prédio às 9h06 daquele dia.



O diretor do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Marcelo Ponte, também participou da reunião. Após o almoço com prefeitos e antes de pegarem a estrada rumo Goiânia, o empresário conta que foi levado pelos pastores à sede do FNDE – órgão com orçamento bilionário controlado pelo Centrão e alvo de denúncias de corrupção. “Eles me levaram no FNDE, um outro prédio. Era um rapaz novo, não sei se era presidente ou diretor. Falaram: ‘olha tá tudo certo’, mas não tinha um documento que provasse que teria as obras”, relata.





BOLSONARO



Depois que o escândalo foi revelado, houve uma preocupação generalizada sobre os desdobramentos do caso. Trindade conta que telefonou para o pastor Arilton Moura pedindo para que tivesse o nome poupado, uma vez que não deu continuidade ao esquema. Ele mostrou ao Estadão o print de uma chamada de áudio feita para Arilton que durou cerca de 6 minutos. A ligação, segundo ele, não foi gravada.



A investigação sobre este caso foi enviada ao STF por suspeita de interferência de Jair Bolsonaro em uma outra frente de apurações. Milton Ribeiro contou à filha, em uma ligação grampeada pela Polícia Federal, que havia sido alertado pelo presidente sobre a possibilidade de ser alvo de um mandado de buscas no âmbito do inquérito sobre o gabinete paralelo.”Ele acha que vão fazer uma busca e apreensão em casa”, relatou o ex-ministro em ligação com a filha.





De acordo com Ailson da Trindade, o pastor Arilton também estava preparado para a chegada dos federais. “Eu liguei para ele. Perguntei o que estava acontecendo, ‘tá teu nome aí’, ‘como é que vai ficar, se vocês não vão falar nada da minha empresa…’. (Arilton teria dito:) ‘Não se preocupe que a gente não vai falar nada, tá? Já combinamos com o presidente e o ministro já, tá?’, que era Milton, né?. ‘O ministro já está providenciando tudo e a gente vai ficar calado, aí eu tô aguardando que a Polícia Federal a qualquer momento vem na minha casa, mas tá tudo já… tudo resolvido, tá tudo esquematizado’”.



Nesta quarta-feira, 21, as jornalistas Andréia Sadi e Julia Duailibi, da GloboNews, informaram que o delegado da PF Bruno Calandrini, responsável pela investigação sobre o gabinete paralelo no MEC, convocou dois delegados da cúpula da corporação. O interrogatório vai apurar as suspeitas de interferência na apuração contra Milton Ribeiro.



O inquérito da PF foi aberto após o Estadão revelar a existência do gabinete paralelo no MEC. Prefeitos contaram ao jornal que só conseguiam verbas para obras, como construção de escolas e creches, pagando propina aos pastores.



O acesso ao ministro também só era possível mediante acordo com os religiosos. Fotos mostram que os religiosos despachavam de dentro do gabinete do ministro. Ribeiro foi o quarto ministro da Educação do governo Bolsonaro e chegou ao cargo indicado pela primeira-dama Michelle Bolsonaro. Só foi demitido depois de a séria de reportagens revelar o esquema.



O advogado Daniel Bialski, que defende Milton Ribeiro, afirmou que o ex-ministro “nega absolutamente esse tipo de acusação, leviana, mentirosa e feita com intuito e interesse eleitoreiro”. “Isso não existiu e se essa pessoa materializar sua fala, será processado pela calúnia”, afirmou.



Procuradas, as defesas dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura não responderam.





OS MOTIVOS DE AILSON SOUTO



Ailson Souto é um empresário que atua nos ramos imobiliário e de construção. Natural do Pará, ele transferiu a sede de sua empresa para São Paulo. Ele não nega que seu patrimônio e suas relações políticas em Belém tenham feito dele alguém que empresta dinheiro a juros para políticos.



Ele se inscreveu para concorrer a deputado estadual pelo PP. Segundo ele, decidiu fazer a denúncia porque intimidações e ameaças de ex-aliados se tornaram insustentáveis. Ele diz que familiares têm sido abordados por interlocutores dos pastores e que precisou reforçar a sua segurança pessoal.



Trindade é um dos candidatos mais ricos, com uma evolução patrimonial pouco clara. Em 2012, concorreu a um cargo de vereador da cidade paraense de Porto de Moz e declarou R$ 15 mil em bens. Agora, são R$ 448 milhões, sendo R$ 390 milhões em lavouras de soja, R$ 39 milhões em criptomoedas e R$ 9 milhões em quadros e jóias.



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