Política · Economia

O dogma dos juros altos: Lara Resende desafia a ortodoxia e aponta o verdadeiro peso da dívida

O economista André Lara Resende questiona o foco exclusivo nos gastos primários e propõe uma revisão profunda na política de juros para salvar as contas públicas.

Foto: André Lara Resende Crédito: Geraldo Magela/Agência Senado · Original e licença

O debate econômico brasileiro vive sob uma espécie de dogma: a ideia de que o desequilíbrio das contas públicas é fruto quase exclusivo do excesso de gastos primários. No entanto, o economista André Lara Resende, em artigo recente, propõe uma inversão radical nessa lógica. Para ele, o verdadeiro vilão da trajetória insustentável da dívida pública, que hoje alcança cerca de 80% do PIB, não é o investimento social ou a máquina estatal, mas o custo astronômico dos juros mantidos pelo Banco Central.

Os números apresentados por Resende são contundentes. Enquanto o déficit primário do país permanece próximo ao equilíbrio, o pagamento de juros consome mais de 10% do PIB anualmente. Com o custo médio da dívida em 12,7% ao ano e um crescimento nominal da economia estagnado em 7%, o país vive uma armadilha aritmética: o custo de financiamento supera a capacidade de expansão da economia, tornando a dívida impagável, independentemente do esforço de corte de gastos.

O economista contesta a eficácia da política monetária convencional, argumentando que juros elevados, em vez de conterem a inflação, podem estar alimentando o desequilíbrio fiscal. Ele sugere a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN) para integrar as decisões econômicas e propõe uma redução gradual da Selic para 7,5% ao ano, utilizando as reservas internacionais — que superam US$ 350 bilhões — como escudo contra especulações cambiais. Segundo o autor, essa mudança poderia gerar uma economia fiscal de 4% do PIB ao ano.

Em um tom crítico, Resende aponta o dedo para o que chama de 'pensamento único'. Ele questiona o Banco Central pela insistência em teorias que ignora a realidade brasileira, critica a grande imprensa por ignorar o impacto dos juros e acusa o mercado financeiro de confundir interesses rentistas com o bem-estar coletivo. Para o economista, o Brasil precisa ter a coragem de questionar quem realmente lucra com a atual política de juros.

Em resumo

  • O pagamento de juros consome mais de 10% do PIB, superando o impacto dos gastos primários na dívida.
  • Lara Resende propõe a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para integrar a política econômica.
  • A estratégia sugere reduzir a Selic para 7,5% ao ano, usando reservas internacionais para proteger o câmbio.
  • A mudança poderia gerar uma economia fiscal de 4% do PIB, evitando cortes recessivos nas despesas.

Fonte: Brasil 247

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