Documentos revelam que governo Bolsonaro tentou exportar respiradores no auge da crise da Covid-19
Telegramas diplomáticos obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram que o Itamaraty buscou compradores estrangeiros para equipamentos médicos enquanto o Brasil enfrentava colapso hospitalar.

Enquanto o Brasil enfrentava um dos momentos mais dramáticos da pandemia de Covid-19, com hospitais à beira do colapso e falta de insumos básicos, o governo de Jair Bolsonaro mobilizou sua rede diplomática para tentar vender respiradores brasileiros ao exterior. A revelação consta em documentos obtidos pela agência Fiquem Sabendo via Lei de Acesso à Informação.
Em 17 de junho de 2020, o Itamaraty, sob o comando de Ernesto Araújo, enviou uma circular classificada como "urgentíssimo" para dez embaixadas na América do Sul. O objetivo era mapear potenciais compradores e preparar uma ofensiva comercial para ventiladores pulmonares. A justificativa oficial era uma suposta sobra de produção, embora o governo não tenha apresentado qualquer estudo ou dado técnico que comprovasse a existência de excedente de aparelhos no mercado interno.
A iniciativa ocorreu em um cenário de crise aguda. Naquele mesmo dia, o país registrou 1.269 mortes em 24 horas, totalizando mais de 46 mil óbitos. Relatórios da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) da época alertavam, inclusive, para o risco iminente de falta de respiradores em Manaus, contradizendo a narrativa de que o Brasil poderia exportar os equipamentos.
A manobra do Itamaraty ignorava uma lei sancionada pelo próprio Bolsonaro em abril de 2020, que proibia a exportação de ventiladores pulmonares durante a emergência sanitária, salvo em casos excepcionais e fundamentados. Segundo apuração da época, o então ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a relatar que o Itamaraty pressionava pela liberação das vendas para evitar desgastes diplomáticos, mesmo após alertas de que a medida poderia custar vidas brasileiras.
Registros diplomáticos indicam que a ordem teve desdobramentos práticos. Em julho de 2020, a Embaixada do Brasil em Quito chegou a intermediar o contato entre o sistema de seguridade social do Equador e fabricantes brasileiros de equipamentos biomédicos, após solicitar uma lista de fornecedores à Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (Abimo).
Em resumo
- O Itamaraty mobilizou dez embaixadas em junho de 2020 para buscar compradores estrangeiros de respiradores.
- A ação ocorreu no auge da pandemia, quando o Brasil registrava recordes de mortes e escassez de equipamentos em UTIs.
- O governo ignorou lei que proibia a exportação de ventiladores pulmonares durante a emergência sanitária.
- Documentos comprovam que a Embaixada em Quito chegou a intermediar contatos comerciais entre o Equador e fabricantes brasileiros.
Fonte: ICL Notícias

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