643 visitas - Fonte: O Globo
BRASÍLIA — O ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles afirmou, em esclarecimentos apresentados por escrito à Procuradoria-Geral da República (PGR), que realizou uma reunião com madeireiros da região da Amazônia após uma solicitação "feita pessoalmente" pelo ministro-chefe da Casa Civil do governo Bolsonaro, Luiz Eduardo Ramos.
As explicações foram enviadas por Salles à PGR, que decidiu pedir abertura de inquérito contra o ministro. O inquérito foi autorizado nesta quarta-feira pela ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia. No documento, o ministro afirma que atuou com "espírito público" nas reuniões realizadas com o setor e nas viagens feitas à Amazônia para verificar a situação do desmatamento ilegal.
A suspeita do inquérito é a de que Salles agiu para dificultar as investigações e favorecer os madeireiros. É a primeira vez que outro ministro é citado dentro das investigações contra Salles, mas a PGR não apontou nenhum indício de irregularidade envolvendo Ramos ou outras autoridades públicas participantes da reunião.
Salles relata duas reuniões realizadas no ministério com empresários do setor. Uma delas foi com parlamentares de Santa Catarina que levaram empresários catarinenses que atuam no Estado do Pará. Relata que ouviu uma reclamação deles sobre o delegado da Polícia Federal Alexandre Saraiva, responsável pela investigação sobre desmatamento ilegal.
"Segundo eles, parte de sua produção estaria então retida há mais de 100 dias pela operação empreendida pelo delegado Saraiva, sem que, até então, o referido delegado tivesse facultado oportunidade para que pudessem exercer sua defesa", relatou Salles.
Em seguida, o ministro diz que a assessoria da Casa Civil encaminhou ao ministério demanda semelhante sobre produtores rurais de Roraima. "O Ministério do Meio Ambiente também foi procurado pelo senador da República Telmário Mota (Pros-RR), acompanhado do secretário-executivo do Ministério da Justiça, dr. Tercio Tokano, ambos encaminhados pela assessoria da Casa Civil, dando conta de que produtores rurais do Estado de Roraima também estavam sendo impedidos de efetuar o transporte de produtos resultantes de manejo florestal", afirmou Salles.
De acordo com o relato do ministro, começou a ser planejada a possibilidade de uma viagem para a região, acompanhado da equipe do Ministério da Justiça, comandado então por André Mendonça. Até que, segundo Salles, o ministro Ramos abordou pessoalmente o assunto.
"Dias depois, o Ministério do Meio Ambiente recebeu nova solicitação, dessa vez feita pessoalmente pelo então ministro chefe da Secretaria de Governo (Segov), hoje ministro chefe da Casa Civil, general de Exército Luiz Eduardo Ramos, no sentido de que se fizesse uma reunião conjunta entre aquele ministério (Segov), com o Ministério da Justiça, Ministério do Meio Ambiente, Procuradoria do Estado de Roraima, senadores da República, deputados federais e demais órgãos do governo", afirmou o ministro.
A reunião foi realizada no dia 25 de março e, além dos parlamentares, teve a presença de representantes do setor madeireiro da Amazônia. Também participaram o secretário executivo de Ramos, Jonatas Castro, e do Ministério da Justiça, Tércio Tokano. Depois da reunião, foi decidida a realização de uma viagem à Amazônia para fiscalizar as investigações contra o desmatamento. Essa ação, de acordo com a notícia-crime apresentada pela PF, foi uma tentativa de obstruir as investigações.
Salles nega irregularidades e diz que a posição adotada foi de agilizar o desfecho da investigação. "A posição adotada pelo MMA, e por todos os demais participantes das reuniões e das viagens ao Pará foi que houvesse uma decisão rápida, seja ela pela legalidade, se assim concluir o inquérito, ou mesmo pela ilegalidade do manejo sob análise", defendeu-se.
Para o ministro, a reunião foi realizada para ouvir os madeireiros, e não para defendê-los. Salles diz que o próprio Saraiva "teria sido convidado" pelo Ministério da Justiça, mas não compareceu porque estaria de férias.
"Ao tratar da suposta advocacia administrativa, levianamente afirma que o ministro do Meio Ambiente realiza defesa pública de madeireiros, o que não é verdade. A reunião que o delegado Saraiva levianamente afirma que teria sido para defender madeireiros foi realizada pela já mencionada lista de autoridades, inclusive pelo seu superior, o secretário-executivo do MJ, para ouvir os madeireiros, e não para defendê-los", escreveu.
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