O dilema de Tarcísio: entre a herança bolsonarista e a busca por identidade própria
Após a derrota do bolsonarismo, o governador de São Paulo tenta se reposicionar para 2030, mas enfrenta contradições entre sua gestão técnica e o alinhamento ideológico radical.

Foto: Tarcísio de Freitas Crédito: Eduarda Campos/Governo do Estado · Original e licença
Dois dias após a segunda derrota consecutiva do bolsonarismo nas urnas, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, publicou um vídeo nas redes sociais com uma mensagem repetida seis vezes: “A eleição passou.” O pronunciamento, que evitou citar nominalmente o presidente Lula ou a fuga de Flávio Bolsonaro para o exterior, marcou o início de uma tentativa de Tarcísio de se apresentar como o novo rosto de um projeto de país para 2030. O desafio, contudo, é claro: o governador precisa definir se pretende construir uma direita com identidade própria ou se continuará apenas como o administrador da herança política da família Bolsonaro.
A trajetória de Tarcísio, engenheiro formado pelo Instituto Militar de Engenharia, é marcada por uma transição de técnico a político. Após atuar em governos de diferentes espectros, como os de Dilma Rousseff e Michel Temer, foi sob a gestão de Jair Bolsonaro que ganhou projeção nacional. Sua reeleição em 2026, com 14,49 milhões de votos (62,65% dos válidos), consolidou uma ampla coalizão, mas não eliminou a dependência política que o levou ao poder. A imagem de gestor técnico, muitas vezes utilizada para encobrir escolhas ideológicas, enfrenta agora o teste da realidade administrativa.
A gestão paulista apresenta contradições significativas. Na segurança pública, o estado registrou 834 mortes em intervenções policiais em 2025, o terceiro aumento anual consecutivo, forçando o governador a um recuo público sobre o uso de câmeras corporais. Na economia, apesar da defesa da responsabilidade fiscal, o estado fechou 2025 com um déficit de R$ 12,2 bilhões. Além disso, o Tribunal de Contas do Estado, ao aprovar as contas de 2025 com ressalvas, apontou deficiências na fiscalização de concessões e questionou a transparência em renúncias fiscais que beneficiam uma pequena parcela das empresas.
O futuro político de Tarcísio também passa por um ajuste de postura institucional. Em setembro de 2025, o governador chegou a classificar o ministro Alexandre de Moraes, do STF, como "tirano" e defendeu a anistia aos envolvidos em atos golpistas. Embora o tom recente tenha se tornado mais conciliador, a dúvida sobre a consistência dessa mudança permanece. Para o establishment econômico, que já observa o governador como uma alternativa, a transição para 2030 exigirá mais do que um novo discurso: demandará um programa econômico sólido e um compromisso inequívoco com a estabilidade democrática, desvinculado das pautas de confronto do bolsonarismo.
Em resumo
- Tarcísio de Freitas busca se reposicionar como liderança da direita para 2030 após a derrota eleitoral de 2026.
- A gestão paulista enfrenta desafios como o aumento da letalidade policial e um déficit orçamentário de R$ 12,2 bilhões em 2025.
- O governador tenta equilibrar sua imagem de gestor técnico com o histórico de alinhamento ideológico radical e críticas ao Judiciário.
- A viabilidade de um projeto próprio depende de sua capacidade de se distanciar da tutela política da família Bolsonaro.
Fonte: Brasil 247

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