O debate sobre os juros: por que a redução acelerada da Selic divide economistas
O professor José Luis Oreiro analisa os riscos de uma queda abrupta na taxa básica de juros e propõe uma agenda de reformas estruturais para o país.

Foto: José Luis Oreiro Crédito: Divulgação · Original e licença
O economista e professor da Universidade de Brasília, José Luis Oreiro, trouxe uma perspectiva cautelosa ao debate sobre a política monetária brasileira. Em análise recente, ele ponderou que, embora o diagnóstico de que os juros elevados impulsionam o crescimento da dívida pública esteja correto, a estratégia sugerida por André Lara Resende de reduzir a taxa Selic para 7,5% em um ano carece de viabilidade prática diante das engrenagens do sistema financeiro atual.
Os dados apresentados por Oreiro ilustram o peso do custo financeiro: a dívida bruta do país atingiu a marca de R$ 10,9 trilhões, o que representa 82,5% do PIB. Com um custo de carregamento anual de 12,68%, os encargos nominais chegam a 10,5% do PIB, superando significativamente o déficit primário, que se mantém em 0,4%. Para o professor, essa dinâmica demonstra que a política monetária não pode ser isolada da gestão fiscal, sob o risco de agravar a sustentabilidade do endividamento.
Um dos principais obstáculos apontados pelo economista é a predominância das Letras Financeiras do Tesouro (LFTs) na carteira da dívida. Por serem títulos que acompanham a Selic e possuem alta liquidez, eles impedem que a política monetária tenha o efeito desejado sobre a economia real. Oreiro argumenta que uma queda forçada dos juros sem alterar essa estrutura poderia desencadear uma fuga de capitais, pressionando o câmbio e gerando inflação, o que forçaria o Banco Central a elevar as taxas novamente, em um ciclo de instabilidade que ele compara a episódios passados de descontrole monetário.
Além das barreiras técnicas, o economista ressalta que a proposta de criar um conselho para coordenar as políticas fiscal e monetária enfrentaria um cenário político adverso. Como a autonomia do Banco Central foi consolidada pela Lei Complementar nº 179 de 2021, qualquer alteração exigiria um apoio parlamentar que, na visão de Oreiro, o governo não detém no momento. Tentar avançar com essa pauta sem base política poderia, segundo ele, apenas aumentar a desconfiança dos mercados.
Em vez de uma redução abrupta, o professor defende uma agenda estrutural. Suas sugestões incluem a revisão da meta de inflação para um patamar entre 4% e 4,5%, a substituição gradual das LFTs por títulos prefixados e o uso de instrumentos como o IOF para regular fluxos de capitais. No campo fiscal, ele sugere que o foco recaia sobre a revisão de benefícios tributários e gastos específicos, em vez de cortes lineares que prejudicam a atividade econômica.
Em resumo: - José Luis Oreiro considera a proposta de redução rápida da Selic tecnicamente arriscada e politicamente inviável. - O economista alerta que a estrutura atual da dívida pública, baseada em títulos pós-fixados, dificulta a transmissão da política monetária. - A alternativa proposta envolve reformas estruturais, como a regulação de capitais e a revisão da meta de inflação, para permitir uma queda sustentável dos juros.
Fonte: Brasil 247

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