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1/4/2020 09:53

Huck : a cara do neoliberal desumano

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2730 visitas - Fonte: The Intercept Brasil

CORONAVÍRUS: STARTUP EDUCACIONAL DE LUCIANO HUCK DISPENSA PROFESSORES SEM QUALQUER AJUDA FINANCEIRA
Hyury Potter
1 de Abril de 2020, 1h03
“LEMBRE-SE SEMPRE que para o Alicerce você é, ao mesmo tempo, agente de transformação e objeto e alvo do nosso cuidado”, diz um trecho do contrato de trabalho dos professores do grupo Alicerce, startup de aulas de reforço escolar que tem entre seus principais investidores e garoto-propaganda o apresentador da Globo Luciano Huck.

No dia 20 de março, dezenas de trabalhadores da instituição souberam exatamente o que significava estar aos cuidados da empresa. Todos foram dispensados, por mensagem de WhatsApp, após o fechamento obrigatório das escolas devido a quarentenas por conta do coronavírus impostas nos estados onde a empresa atua: São Paulo, Paraná e Minas Gerais.

Ao contrário de muitas pequenas empresas que não têm como pagar ou ajudar seus funcionários em tempos de pandemia, o Alicerce alardeia um caixa gordo. Além de Huck, o grupo também tem outros investidores ilustres como o economista Armínio Fraga e anunciou um aporte de R$ 20 milhões no final do ano passado para ampliar o número de unidades da empresa para 70 até o final de 2020.

Os mais de 400 professores que trabalham, ou trabalhavam, para as 37 unidades do grupo são microempreendedores individuais, os MEI. Ou seja, na prática, são pequenas empresas com um contrato de serviço com uma grande empresa e por isso não têm os mesmos direitos e benefícios que um trabalhador formal contratado, como seguro-desemprego, férias remuneradas e 13º salário.

Trecho do contrato assinado pelos professores da Alicerce.
Essa terceirização da atividade-fim, uma maneira de empresários reduzirem custos trabalhistas, é tratada no Alicerce como uma “oportunidade para empreender”, como descreveu o próprio CEO da startup, o empresário Paulo Batista, quando o entrevistei. No dia 20 de março, quando alguns professores de uma das unidades da escola no Paraná, reclamaram em um grupo de WhatsApp que estariam sendo demitidos, Batista respondeu:

“Veja. Não existe ‘demissão’ de PJ [pessoa jurídica]. E nenhum de vocês foi afastado do Alicerce. Apenas o contrato de vocês reza que ganham por período efetivamente trabalhado. Com o fechamento dos polos, não tem como vocês trabalharem. E não tem como remunerar todos os líderes de todo o Brasil sem dar aulas”.
Mensagem enviada aos profissionais pelo Whatsapp pelo CEO da empresa, Paulo Batista.
Quando o entrevistei na quarta-feira da semana passada, a história mudou. Batista disse que nos dias seguintes a empresa ofereceu opção de trabalho remoto, mas “nem todos aceitaram”. Os professores com que conversei, no entanto, afirmam que não receberam convite para trabalho remoto ou qualquer outro tipo de atividade.

Já o garoto-propaganda Huck, que ajudou tanto a angariar alunos para startup quanto professores ao elogiar publicamente a empresa, respondeu ao meu pedido de comentários para o caso dizendo que “é entusiasta e apoiador da iniciativa empreendedora que visa qualificar o contraturno escolar em regiões menos assistidas, mas que não tem nenhuma função e não sabe detalhes da gestão da empresa”.

Luciano Huck faz propaganda para o grupo Alicerce.
Professores também são faxineiros e porteiros
Em seu site, a empresa se define como uma startup educativa que oferece um complemento educacional presencial com “um método de ensino totalmente inovador”. Para os professores, chamados de líderes no organograma da empresa, o grupo se apresenta como uma oportunidade para professores se tornarem “empreendedores” – o que inclui acompanhar as crianças enquanto os pais não chegam e até limpar banheiros e salas de aula. Nada disso, é claro, é descrito no contrato de trabalho assinado pelos professores ou relatado nos treinamentos a que são submetidos antes de começar a trabalhar na empresa, como me disseram diversos professores sob a condição de anonimato.

“A gente tem que cuidar de todo espaço. Só há limpeza nos fins de semana, então o que era regra é a gente ter que limpar a sala, lavar banheiro e fazer outras tarefas durante a semana. E só fazíamos isso depois das aulas, então era um período que não entrava na contagem de horas trabalhadas para o pagamento”, diz o professor João, que teve o nome alterado nesta reportagem por temer retaliações.

Para deixar o filho em uma unidade Alicerce, os pais e responsáveis pagam pacotes mensais que vão de R$ 149,90 a R$ 199,90. Em média, são sete professores por unidade. Eles são remunerados por turnos de quatro horas e meia de trabalho, que dão R$ 62,50 de pagamento pelo serviço — menos de R$ 14 por hora. Como comparação, o último acordo de convenção coletiva do Sindicato dos Professores do Paraná estipula entre R$ 16 e R$ 22,60 o valor a ser pago por hora para professores do ensino fundamental e médio, respectivamente, além de direitos trabalhistas básicos como férias e pagamento de horas extras. O valor pago para os professores do Alicerce leva em consideração apenas as horas dentro de sala, não contabilizando o tempo que eles passam em tarefas extras de limpeza e organização.


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