97 visitas - Fonte: Plantão Brasil
A indústria automobilística da Argentina, outrora parceira estratégica do Brasil, está mergulhada em uma crise de competitividade que atinge diretamente o consumidor brasileiro. O caso mais emblemático é o do Ford Everest: o SUV de luxo, que deveria ser produzido em General Pacheco para abastecer o mercado nacional, teve seu projeto sumariamente abandonado. Segundo Martín Galdeano, presidente da Ford na América do Sul, a carga tributária asfixiante de 12% sobre a exportação tornou o modelo inviável, expondo as vísceras de uma economia vizinha que ainda não conseguiu se estabilizar sob modelos neoliberais agressivos.
Enquanto o Brasil do governo Lula trabalha para reindustrializar o país com incentivos à produção nacional e sustentável, a Argentina vê suas fábricas perderem relevância para o México. O Volkswagen Taos é a prova viva desse deslocamento: o modelo deixou de cruzar a fronteira argentina para vir do território mexicano, onde a estrutura de impostos é mais equilibrada. Essa mudança permitiu, inclusive, uma redução de até R$ 22 mil no preço de algumas versões no Brasil, evidenciando que o custo de produção no país vizinho tornou-se um fardo insuportável para as matrizes globais.
O chamado “custo Argentina” está forçando uma realocação de investimentos que acende um sinal amarelo para o Mercosul. De acordo com a Anfavea, as montadoras priorizam critérios financeiros rígidos e, quando o custo estrutural interno de um parceiro se torna proibitivo, a produção é transferida para onde há mais racionalidade tributária. O problema não reside no comércio bilateral em si, mas na incapacidade da Argentina em oferecer condições mínimas para que os veículos saiam da fábrica com preços competitivos, prejudicando a integração regional.
A desistência da Ford com o Everest e o reposicionamento da Volkswagen são reflexos de uma política econômica que, ao contrário da brasileira, falha em proteger sua base industrial. Para quem repudia as políticas de desmonte que o bolsonarismo tentou implementar por aqui — muitas delas espelhadas no que ocorre hoje com nossos vizinhos —, fica o alerta: sem um Estado indutor e um sistema tributário justo, as fábricas simplesmente fecham as portas ou mudam de endereço. O cancelamento desses projetos é uma perda para toda a cadeia produtiva da América do Sul.
Nos bastidores das montadoras, a avaliação é de que o cenário argentino dificulta qualquer planejamento de longo prazo. Enquanto o México se consolida como um polo exportador neutro e eficiente, a Argentina vê seu volume de exportação minguar. O resultado para o brasileiro é um mercado mais volátil, onde modelos prometidos desaparecem e a origem dos veículos muda conforme a conveniência fiscal das empresas. A estrutura tributária argentina hoje funciona como um pedágio que impede o desenvolvimento da indústria local e afeta o dinamismo do bloco econômico.
A crise silenciosa nas fábricas de General Pacheco e outras regiões argentinas é um lembrete contundente de que a estabilidade institucional e econômica é fundamental para atrair e manter investimentos. O Brasil, ao trilhar um caminho de fortalecimento do mercado interno e diálogo com o setor produtivo, tenta se blindar desse efeito dominó. No entanto, o fim do projeto do Ford Everest mostra que, em um mundo globalizado, o fracasso econômico de um vizinho imediato sempre acaba batendo à nossa porta, seja na falta de produtos ou na mudança forçada de estratégias comerciais.

Com informações do DCM
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