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29/9/2020 11:26

Médica que Damares enviou para impedir aborto de menina afirma que foi ação ´´institucional``

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1311 visitas - Fonte: Folha de São Paulo

Em publicação nas redes sociais datado de 23 de janeiro de 2016, Mariângela recebe a ativista de extrema-direita Sara Giromini (Sara Winter) na sede da associação. "É uma menina dócil, mas que está sofrendo grandes perseguições das feministas", diz Mariângela, que à época era diretora da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família.

Ex-funcionária do ministério de Damares, que já a chamou de filha, Giromini vazou a identidade da menina nas redes sociais, o que infringe o Estatuto da Criança e do Adolescente, e levou dezenas de manifestantes à porta do hospital onde ocorreria o procedimento para constranger a vítima e os médicos.


Questionada sobre a relação entre a associação e o hospital, Mariângela afirmou primeiro que "a gente é bem parceiro, é muito próximo", e em seguida que “só se conhece” e "não tem muita relação". Diante de novas perguntas, encerrou a entrevista.

Antes, a assessoria do HSFA negara ter enviado médicas a São Mateus, mas afirmara ter oferecido "ao juiz da comarca que acompanhou o caso sua estrutura física e técnica pelo fato de ser um hospital preparado para gestação de alto risco, caso a decisão fosse levar a gestação adiante, sendo tal oferta condicionada à autorização de representante legal e/ou da Justiça".

No entanto, a Folha obteve relatos de que Elizabeth Kipman, ginecologista e obstetra no HSFA, fez contato por telefone e mensagem com autoridades locais nos dias anteriores à reunião, oferecendo os serviços do hospital.

Documento que lista os participantes da reunião em São Mateu traz seu nome, embora os presentes não confirmem sua participação. Em entrevista por telefone, Kipman disse que não esteve na cidade capixaba: "Tenho 78 anos agora em outubro, sou de risco [à Covid], não vou viajar e não estive em São Mateus".


Depois, por email, respondeu que não se apresentou às autoridades locais e que desconhecia a reunião: "Tenho conhecimento de que partiu do hospital uma oferta de serviços médicos pelo fato de a instituição ser referência para partos de alto risco, caso a decisão dos representantes legais e/ou da Justiça fosse no sentido de dar continuidade à gestação".

Embora todas tivessem sido apresentadas genericamente como médicas do HSFA conhecidas de Damares, nenhuma tinha vínculo direto com o hospital e apenas duas eram de fato médicas: a residente em urologia Rafaela Lima dos Santos e a infectologista Janaína Aparecida Schineider Casotti –esta última de Vitória (ES).

Outro membro foi a farmacêutica e bioquímica Renata Gusson Martins, ligada ao Movimento Mullheres pela Vida e apontada como porta-voz do grupo. A Folha tentou contato com Janaína, mas ela desligou assim que a repórter se identificou. As demais não atenderam.


A reunião na prefeitura durou quase cinco horas e teve a presença de dois representantes da ministra: Alinne Duarte de Andrade Santana, coordenadora geral de proteção à criança e ao adolescente da Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, e Wendel Benevides Matos, coordenador geral da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos. A eles se somaram o deputado estadual Lorenzo Pazolini (Republicanos) e assessores.

Por parte do município estavam presentes a secretária de Ação Social, Marinalva Broedel; Susi Dante Lucindo e Romilson Candeias, do Conselho Tutelar local; e representantes do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) e da Casa Lar, que abrigava a criança desde a constatação da gravidez.

De acordo com relato à Folha, Alinne se levantou imediatamente para receber as médicas e falou em tom muito respeitoso sobre elas. Disse que sabia que viriam e as descreveu como voluntárias que saíam viajando pelo país oferecendo ajuda em nome do hospital, especialista em parto de risco.


Ainda segundo esse relato, o grupo chegou com um planejamento pronto sobre o que deveria ocorrer com a menina: o aborto não seria autorizado; em vez disso, a criança, acompanhada de um membro da família, seria levada para um abrigo de gestantes e teria acompanhamento no HSFA.

Questionadas sobre como elas tiveram acesso ao caso e se sabiam daquela reunião, as médicas responderam que haviam tido contato prévio com Susi, do conselho tutelar. Uma delas afirmou que a criança estava com 21 ou 22 semanas de gestação, um dado sigiloso.

Procurados, o promotor Fagner Cristian Andrade Rodrigues, responsável pelo caso, e a Vara da Infância e da Juventude não quiseram se manifestar.

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